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Novo site do Slow Food Brasil

O novo design e navegação do novo site do Slow Food Brasil foram feitos para valorizar o rico conteúdo publicado no site desde que ele nasceu há 6 anos atrás. Hoje já são mais de 700 textos, receitas, vídeos, artigos e notícias.

No novo site, algumas novidades merecem destaque:

As área de Vídeos e Educação do Gosto foram totalmente reformulados e estão com vários conteúdos novos.
Rede Jovem Slow Food e as campanhas Slow Fish Brasil e Queijos Artesanais ganharam muito mais destaque, para que as pessoas possam conhecer mais dessas iniciativas e campanhas realizadas pelos grupos de trabalho do Slow Food Brasil.
Foi criada uma nova seção para Publicações, onde estão disponibilizados vários livretos, manuais e cartilhas do Slow Food, tudo com download gratuito.
Dois novos produtos brasileiros na Arca do Gosto já estão no site: Jaracatiá e Arroz Nativo do Pantanal.
Esperamos que o site seja cada vez mais útil para o movimento no Brasil e que ele sempre sirva para consulta, pesquisa e referência sobre o Slow Food, os projetos e campanhas realizados.

Conservação da sociobiodiversidade por meio de SAFs biodiversos e complexos

Joel Henrique Cardoso

A sociobiodiversidade engloba produtos, saberes, hábitos e tradições próprias de um determinado lugar ou território. Trata-se de um conceito relativamente novo, centrado na ideia de visibilidade identitária e valorização das especificidades e diferenças que foram se conformando nos processos históricos de coevolução socioambiental. Este novo conceito foi apregoado pela Convenção Internacional de Biodiversidade e tenta agrupar aspectos que historicamente foram vistos como separados, mas que integram um mesmo sistema, que pode ser destrinchado em cultura, valores e significados, paisagem, recursos, produtos e impactos deste mesmo sistema.

Os sistemas agroflorestais (SAFs) consistem em estratégias de manejo do solo que consorciam, simultânea ou sequencialmente, árvores com cultivos e/ou criações de maneira intencional, visando cumprir funções desejadas por quem maneja o sistema. Entre as muitas formas que estes arranjos de cultivo podem ser pensados, os sistemas agroflorestais biodiversos e complexos ressurgem para as sociedades modernas como uma oportunidade de reaprender a conviver com a natureza, uma vez que esta forma de cultivo da terra procura imitar os processos sucessionais que ocorrem em ecossistemas ditos naturais, que se formam sem a intervenção humana premeditada, o que contrasta com a estratégia moderna de cultivar, que desconsidera a sucessão natural, a biodiversidade adaptada ao local e os saberes e práticas que as populações tradicionais desenvolviam para produzir seus alimentos.

Os SAFs biodiversos e complexos ou sucessionais abrem espaço para toda a biodiversidade, uma vez que estes sistemas têm a multifuncionalidade como uma estratégia-chave, ainda que a produção de alimentos seja a primeira necessidade que deva ser suprida. A biodiversidade local, formada por espécies não cultivadas, tem um lugar de destaque nos SAFs sucessionais, por ser composta por organismos mais adaptados às condições locais e responderem naturalmente aos desígnios que a dinâmica sucessional estabelece a cada um dos componentes dos ecossistemas naturais. Além de dinamizar os processos ecológicos, as espécies ocorrentes em ecossistemas naturais geram bens e serviços de interesse para os manejadores do SAF, como produção de biomassa, ciclagem de nutrientes, interações com a micro, meso e macrofauna, condicionadores ambientais (interferências nos fluxos de luz, água e ventos), lenha, fitoterápicos, resinas, óleos essenciais, frutos para a alimentação humana e madeira para as mais diversas finalidades.

As espécies trazidas de outros locais, com destaque para os produtos alimentares, carregam consigo um acúmulo de conhecimentos e adaptações que estão incorporados na cultura dos povos. As necessidades agronômicas, os usos, as estratégias de armazenamento, beneficiamento e transformação, as práticas culinárias e tantos outros saberes que vão se transmitindo, construindo e reconstruindo no processo de produção e consumo dos alimentos são patrimônios que precisam ser reconhecidos e preservados. As espécies cultivadas, na quase totalidade, apresentam características muito distintas das ancestrais selvagens e possuem uma grande variedade genética e fenotípica, que é resultado do processo de seleção induzido pelos povos que as domesticaram e utilizam no seu cotidiano.

No processo de coevolução com as sociedades humanas, as espécies cultivadas vão assumindo características próprias de cada local, fruto das interações sócio-ambientais. A adaptação promove diversidade, o que possibilita usos específicos, que por sua vez necessitam de saberes apropriados que também necessitam ser conservados, recuperados da memória ou mesmo reinventados e criados.

As espécies adaptadas ao local, conhecidas como crioulas, tradicionais, “land-races“, sementes da paixão ou locais materializam o conceito de sociobiodiversidade e toda a sua relevância para a soberania dos povos e segurança alimentar das sociedades humanas. No entanto, a conservação destes produtos fica ameaçada no contexto da agricultura moderna, uma vez que as condições de cultivo simplificadas e as exigências de um mercado voltado para a padronização dos produtos ofertados são antagônicas a variabilidade genética e ambiental em que emerge esta agricultura.

Esta dura realidade de simplificação do sistema agroalimentar, que parece implacável, perde completamente o sentido quando se orienta o cultivo a partir da perspectiva da sucessão natural, que é a matriz cognitiva da implantação e manejo dos SAFs complexos e biodiversos. As espécies que historicamente os agricultores utilizaram no local, adaptadas às condições ambientais com saberes, tradições, valores e significados construídos ao longo dos tempos, são componentes chave e representam um passo gigantesco em direção ao redesenho para SAFs biodiversos e complexos.

Tanto as espécies do local como as espécies adaptadas ao local estão ameaçadas pela lógica da agricultura industrial. Em SAFs complexos e biodiversos, estas espécies cumprem funções ecológicas que possibilitam compatibilizar a produção de alimentos para as sociedades locais sem degradar os recursos naturais, melhorando as condições ambientais para que outras espécies de estágio sucessional mais avançado possam se estabelecer e produzir em locais que, em função do uso inadequado da terra, não são capazes de produzir sem aporte de nutrientes, tratos culturais que aceleram o intemperismo dos solos e toda sorte de artificialização das condições ambientais, como irrigação e uso intenso de agrotóxicos.

Os SAFs biodiversos e complexos, integrados com tecnologias sociais que tornem as relações mercadológicas mais equilibradas entre produtores e consumidores, estimulam a conservação da sociobiodiversidade e conservam os demais recursos naturais dos territórios. Apesar de toda a degradação ambiental, o Brasil continua sendo o país com maior área florestal do mundo e tem um conjunto de experiências agroflorestais de referência, o que permite perceber que a política de conservação da sociobiodiversidade tem nos SAFs sucessionais um nicho ideal para a sua promoção. Estes terão um grande avanço nas paisagens rurais à medida que as políticas conservacionistas incorporem a dimensão sistêmica que orienta o conceito de sociobiodiversidade.

Joel Henrique Cardoso é Pesquisador na Embrapa Clima Temperado (área Agricultura Sustentável, sub-área Sistemas Agroflorestais), tendo realizado Doutorado em Agroecologia, Desenvolvimento Rural e Sociologia pelo Instituto de Sociología y Estudios Campesinos da Universidade de Córdoba.

FONTE: Slow Food Brasil

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