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Itália proíbe milho transgênico da Monsanto

Com informações da Reuters.

Três ministros italianos – da agricultura, da saúde e do meio ambiente – assinaram um decreto banindo o cultivo do milho transgênico da Monsanto MON810.

O ministro da agricultura citou os impactos negativos à biodiversidade como principal justificativa para a publicação do decreto. “Nossa agricultura é baseada na biodiversidade, na qualidade, e precisamos continuar a buscar esses objetivos, sem jogos [os transgênicos] que mesmo do ponto de vista econômico não nos tornariam competitivos”, declarou o ministro.

Enquanto as aprovações para o cultivo de transgênicos na Europa são definidas de forma conjunta no nível da União Europeia, governos nacionais podem, individualmente, estabelecer salvaguardas caso considerem que o plantio represente riscos para a saúde ou o meio ambiente.

No ano passado, a França estabeleceu uma moratória similar aos transgênicos.

Segundo a maior organização de agricultores da Itália, a Coldiretti, uma pesquisa recente apontou que cerca de 80% dos italianos apoiam a proibição.

N.E.: Até hoje a União Europeia só autorizou o cultivo de dois transgênicos: o milho MON810, da Monsanto, tóxico a lagartas, e a batata Amflora, da Basf, modificada para produzir amido industrial, que foi um fiasco de mercado e já teve a comercialização suspensa pela Basf. Antes da Itália, outros nove países europeus já tinham proibido o cultivo do milho da Monsanto: Polônia, Alemanha, Áustria, Hungria, Luxemburgo, França, Grécia, Itália e Bulgária.

FONTE: Em pratos limpos

Grupo de segurança alimentar e produtores processam Monsanto

Ação acontece após uma variedade transgênica não autorizada ter sido encontrada em plantação nos EUA

Dois produtores de trigo do Pacífico Noroeste e um grupo de segurança alimentar entraram com uma ação judicial contra a Monsanto, após uma variedade transgênica não autorizada ter sido encontrada em um plantação localizada no Oregon. O Centro para Segurança Alimentar, grupo com sede em Washington que anunciou o processo, disse que a descoberta colocou a cadeia de abastecimento de alimentos e o mercado de exportação em risco. A ação judicial sucede um processo similar movido por um agricultor de Kansas e comunicado no início desta semana.

Em 29 de maio, o Departamento de Agricultura dos EUA (Usda) informou que estava investigando o caso. A Monsanto testou a tecnologia, que garante resistência ao herbicida glifosato, por vários anos, mas suspendeu a pesquisa em 2005 em meio a preocupações da indústria norte-americana de que as sementes prejudicariam os negócios de exportação. O trigo geneticamente modificado nunca foi comercializado.

Japão e Coreia do Sul já restringiram as importações de trigo dos EUA, enquanto aguardam a conclusão das investigações. A Monsanto é uma das maiores empresas no segmento de transgênicos e enfrenta uma intensa oposição em várias partes do mundo. “A Monsanto colocou o nosso mercado de trigo em grave risco”, afirma Andrew Kimbrell, diretor executivo do Centro para Segurança Alimentar, em comunicado. “Eles devem ser responsabilizados.” Uma porta-voz do grupo revelou que até agora o processo conta com apenas dois produtores, mas a expectativa é de que agregue mais pessoas.

Prejuízos
Mover uma ação judicial agora é prematuro, disse em nota Kyle McClain, que representa a companhia norte-americana. Tanto a Monsanto como o secretário do Usda, Tom Vilsack, disseram que a descoberta parece ser um caso isolado. Mas o episódio ameaça derrubar o mercado de trigo, embora a reação dos preços na Bolsa de Chicago (CBOT) até gora tenha sido amena.

Ainda assim, os prejuízos podem ser extremamente altos para a Monsanto. Em 2011, a Bayer firmou um acordo de US$ 750 milhões com produtores de arroz dos EUA que a processaram depois que duas das variedades geneticamente modificadas da empresa alemã contaminaram suas safras. A contaminação, ocorrida em 2001, provocou um tombo nas cotações do cereal e comprometeu as exportações por vários anos, observaram autoridades da indústria, lembrando que o mercado norte-americano de arroz equivale a apenas uma fração do mercado de trigo.

E outras ações judiciais são possíveis, se a situação não for resolvida. Adam Levitt, advogado de Chicago que atuou na defesa da Bayer, afirmou que sua firma foi contatada por “dúzias de produtores” e que continua investigando. “Nós achamos que o outro sapato ainda vai aparecer”, disse ele. Se isso ocorrer, acrescentou, caberá um processo judicial também.

FONTE: Revista Globo Rural (escapou …)

Negócio dos transgênicos foge da Europa devido à rejeição social e política

Juan Gómez e Rafael Méndez
O anúncio de que a multinacional alemã Basf vai transferir para os EUA e a América do Sul a maior parte de suas pesquisas sobre transgênicos é o último sintoma da vitória de ecologistas e grupos de consumidores nessa dura disputa

O anúncio de que a multinacional alemã Basf vai transferir para os EUA e a América do Sul a maior parte de suas pesquisas sobre transgênicos é o último sintoma da vitória de ecologistas e grupos de consumidores nessa dura disputa.

A alemã Basf é a última empresa que desloca a pesquisa para a América

A Europa não é continente para transgênicos. A rejeição social e política em muitos países deixou a UE muito atrasada nesse campo. E o anúncio de que a multinacional alemã Basf vai transferir para os EUA e a América do Sul a maior parte de suas pesquisas sobre transgênicos é o último sintoma da vitória de ecologistas e grupos de consumidores nessa dura disputa. Das grandes do setor, só a Bayer mantém centros de pesquisa na Europa.

A gigante química alemã Basf justifica sua decisão pela baixa demanda por esses produtos na Europa. Segundo a porta-voz Julia Meder, a multinacional prosseguirá suas pesquisas genéticas no continente americano. A Basf fecha seus três laboratórios genéticos com a consequente redução de pessoal e transfere sua sede central de biotecnologia de Limburgerhof (Renânia) para Raleigh (Carolina do Norte). Os produtos geneticamente modificados “não encontram aceitação suficiente na Europa” para justificar os investimentos. Só a Espanha, diz a empresa, “é aparentemente exceção”. Mas em conjunto “o mercado europeu é reticente demais” para que seja rentável.

Em 2004 a suíça Syngenta tomou uma decisão semelhante. Como a Monsanto, Dow e Dupont não mantêm centros de pesquisa na Europa, isso implica que das grandes empresas do setor só a Bayer mantém centros na UE.

Carel du Marchie Sarvaas, diretor de biotecnologia da Europa Bio, associação empresarial do setor, considera a situação desastrosa. “Falamos de postos de trabalho para doutorados, bem remunerados, e as empresas europeias os levam para os EUA. É a típica coisa que deveria fazer as pessoas refletir.” A Basf não dá números sobre os investimentos cancelados, mas afirma que fez pesquisas no valor de mais de 1 bilhão de euros nos últimos 15 anos.

As dificuldades de implantação na Europa não se devem tanto a restrições legais para a pesquisa e o cultivo, como à rejeição do consumidor. Uma pesquisa de 2010 com 16 mil questionários constatou um aumento da rejeição aos transgênicos: havia subido de 57% em 2005 para 61%. Enquanto isso, o apoio baixou de 27% para 23% (na Espanha, de 66% em 1996 para 35%). “Ao contrário da indústria e dos cientistas, os europeus consideram que os organismos geneticamente modificados não oferecem benefícios e são inseguros”, concluiu. E isso apesar de que em quase duas décadas de uso de transgênicos até a Organização Mundial da Saúde (OMS) avalizou sua segurança. Então só seis países cultivavam transgênicos: Espanha (líder em milho resistente à praga da broca), República Checa, Portugal, Romênia, Polônia e Eslováquia. Na Europa havia só cerca de 100 mil hectares, comparados com 134 milhões no mundo.

A situação é tal que França, Alemanha, Hungria, Grécia, Austrália, Luxemburgo e Bulgária proibiram o milho cultivado na Espanha. E outros como a Áustria votam sistematicamente contra a opinião da Agência Europeia de Segurança Alimentar. Nos EUA e nos países em desenvolvimento, por sua vez, há muito menos debate. Carlos Vicente, diretor de biotecnologia da Monsanto para a Espanha, afirma que a paralisação europeia não afetará o desenvolvimento mundial: “Países muito importantes na produção de matérias-primas agrícolas, como Canadá, EUA, Brasil, Argentina, China ou Índia, por exemplo, continuam avançando no desenvolvimento da biotecnologia agrícola”.

A Basf conseguiu em 2010 a licença de cultivo de uma batata transgênica. Ela é geneticamente modificada (a empresa a chama de “melhorada”) para que contenha mais amido de uso industrial que uma batata normal. Isso gerou uma onda de protestos na Alemanha.

A batata Amflora chegou a ser cultivada legalmente em um estado do leste do país. O governo regional ordenou seu confisco quando se soube que na Suécia haviam sido cultivadas entre as Amflora outros tipos de batatas modificadas que não tinham licença. A Basf não comercializa diretamente produtos agrícolas, mas colabora com empresas como Monsanto ou Bayer. Com eles desenvolvem as sementes modificadas que chegam ao mercado através desses parceiros.

A saída da Basf do continente gerou ontem um debate político na Alemanha. Os liberais do DFDP lamentaram a “perda para o desenvolvimento científico”. A política “não soube enfrentar uma corrente de pensamento anticientífica e alheia à realidade”, disseram. Parlamentares dos Verdes, por sua vez, afirmaram que a decisão da Basf se deveu meramente ao “fracasso comercial” de seus produtos agrícolas.

Os ecologistas comemoraram o anúncio como uma vitória: “A decisão da Basf é um aviso para firmas como Monsanto, Syngenta ou Bayer, que continuam pressionando para introduzir cultivos transgênicos na Europa. O exemplo da Basf demonstra que forçar a vontade dos consumidores e da grande maioria dos agricultores nem sequer é rentável economicamente”, manifestou em um comunicado a Amigos da Terra.

O professor de pesquisa do CSIC Pere Puigdomènech opina que a retirada da Basf “pode ser vista como uma vitória ecologista ou como uma perda para a Europa, porque a biotecnologia aplicada à alimentação não será freada. O Brasil, por exemplo, fez uma vagem transgênica e os EUA debatem agora a aprovação da alfafa”. Puigdomènech destaca outro aspecto, que ao perder a pesquisa a UE também perde o controle: “Importam-se milhões de toneladas de grãos transgênicos, mas não poderemos controlar se for produzido por outros e não tivermos a tecnologia”.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Texto original, em espanhol, “El negocio de transgénicos huye de Europa por el rechazo social

FONTE: EL PAÍS

Transgênicos contaminam as sementes crioulas

Entrevista especial com Magda Zanoni, membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, na qual representa o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA.

Por IHU On-Line

Embora tenha crescido a produção de transgênicos no mundo, não é possível comprovar os benefícios agrícolas e econômicos da transgenia. De acordo com a organizadora do livro Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência, Sociedade (Brasilia: Nead, 2011), o tema ainda não é consenso entre os cientistias. “Enquanto a Monsanto faz estudos de impacto em um prazo mínimo, com um número reduzido de animais que alimentam-se de transgênicos, há cientistas como Gilles-Eric Serralini, que realizam estas pesquisas há vários anos, tendo já obtido resultados sobre as modificações fisiológicas dos animais de experimento que corroboram com a presença de riscos”, aponta.

Defensora de uma ciência cidadã, Magda Zanoni argumenta que os novos estudos científicos devem considerar “as necessidades reais da população em termos de saúde e alimentação”. Em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, ela informa que atualmente quatro milhões de pessoas morrem de malária no mundo e, portanto, a transgenia não deve ser prioridade. E reitera: “A sociedade civil deve ter um papel preponderante na escolha das linhas de pesquisa e das inovações tecnológicas”.

Magda Zanoni é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em Sociologia pela Université Paris I. Atualmente é funcionária da Université de Paris X, e da Universite de Bordeaux II e é membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, na qual representa o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA. Também é pesquisadora do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead) do MDA. Magda Zanoni e Gilles Ferment lançaram recentemente o livro Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência, Sociedade (Brasilia: Nead, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A partir da afirmativa de que é preciso debater para se construir uma ciência democrática, que aspectos a senhora destaca como primordiais para o uso dos transgênicos de forma sustentável e em benefício da sociedade?

Magda Zanoni – A questão dos transgênicos ainda não foi discutida com a sociedade civil. Os transgênicos utilizados na agricultura não provam que a maioria dos agricultores familiares e camponeses do mundo seja beneficiada economicamente. Além disso, não há constatações de que a transferência de genes promovida pelas grandes multinacionais como a Monsanto e a Syngenta, que criam novos seres vivos, não tenha impactos sobre a saúde e o meio ambiente. A ciência cidadã leva em conta as necessidades reais da população em termos de saúde e alimentação. Os investimentos nessa biotecnologia não são destinados para eliminar a fome no mundo nem para resolver as exigências de saúde das populações mais necessitadas.

IHU On-Line – Em seu livro, a senhora apresenta um enfoque multidisciplinar para entender os embates em torno do tema dos transgênicos. Como vê a produção de organismos geneticamente modificados (OGMs)?

Magda Zanoni – O Brasil e o governo brasileiro devem fazer uma listagem das principais pesquisas científicas e inovações tecnológicas essenciais para promover um desenvolvimento sustentável com igualdade. Isso pode ser feito através de consultas, debates setoriais, locais, regionais e nacionais, como, aliás, já foi feito no primeiro mandato do governo Lula.

IHU On-Line – Por que a sociedade civil tem um papel tão importante no debate sobre o uso dos transgênicos?

Magda Zanoni – A sociedade civil deve ter um papel preponderante na escolha das linhas de pesquisa e das inovações tecnológicas. Há quatro milhões de indivíduos morrendo de malária no mundo por ano. Portanto, a escolha prioritária não pode ser para os transgênicos?

IHU On-Line – Quais os principais riscos do uso de transgênicos?

Magda Zanoni – A contaminação de cultivos com variedades crioulas tem consequências direta sobre a redução da agrobiodiversidade. Os mecanismos internos que a biologia molecular e a genética estudam para a transferência de genes e a criação de novos seres vivos não encontram, no mundo da ciência, unanimidade. Enquanto a Monsanto faz estudos de impacto em um prazo mínimo, com um número reduzido de animais que se alimentam de transgênicos, há cientistas, como Gilles-Eric Serralini, que realizam essas pesquisas há vários anos, tendo já obtido resultados sobre as modificações fisiológicas dos animais de experimento que corroboram com a presença de riscos.

Não é por acaso que cientistas cidadãos, que comunicam seus resultados a organizações da sociedade civil, sejam marginalizados ou depreciados no mundo da tecnociência. O presidente da CTNBio, em sessão plenária, declarou que seus trabalhos estavam ultrapassados.

IHU On-Line – Como avalia a liberação comercial de sementes transgênicas? Existe aí um risco de consumo? Por quê?

Magda Zanoni – Há risco de consumo de transgênicos porque inexistem estudos epidemiológicos que comprovem a não existência de riscos. Se os laboratórios de medicamentos levam até dez anos para pesquisar os benefícios e riscos de medicamentos originários da transgênese, é de se perguntar as razões de tanta pressa das multinacionais para liberar a comercialização de produtos transgênicos. Convém salientar que o mercado da soja no Brasil já corresponde a 80% do total, e quatro multinacionais estão batalhando para obter o mercado mundial de sementes.

IHU On-Line – Como avalia a questão da não obrigatoriedade de rotulagem dos produtos que contêm ingredientes geneticamente modificados? Que consequências podem ocorrer com a possível perda do direito de saber se o alimento que se está consumindo contém ou não ingredientes transgênicos?

Magda Zanoni – Em primeiro lugar, essas são questões sobre a democracia. Por que não se aplica uma lei se ela foi votada pelo Parlamento? Os deputados não são os representantes do povo? Em segundo lugar, a liberdade também está em questão. Qual é o princípio democrático que não aprova a livre escolha do consumidor em comprar qualquer produto sabendo o que compra? Em vários países europeus a rotulagem foi objeto de grandes reivindicações. A França, por exemplo, votou a obrigação de rotulagem em dezembro de 2010 em função das pressões dos movimentos sociais.

FONTE: IHU On-Line/EcoAgência

Otros tres pueblos santafesinos acuden a la justicia contra el glifosato

Qué tienen en común pueblos como San Jorge, Ibarlucea o La Criolla? Además de estar todos en la provincia de Santa Fe, comparten un triste destino que, boom sojero mediante, los está convirtiendo en pueblos fumigados, donde escuelas, casas y barrios enteros no se salvan del afán agropecuario, sólo preocupado por el rinde de la semilla. Hay otros indicadores, preocupantes, que crecen al ritmo de la producción sojera. Hace tiempo que Alicia Boscatto, subjefa del Registro Civil de San Jorge, comenzó a contar los fallecimientos registrados por cáncer. La cifra hiela la sangre: un 30% más que hace tres años. A ella se suma el doctor Ángel Bracco, que constata esos efectos en su consultorio y curiosamente explica a Tiempo Argentino que “muchos llegan a la consulta preocupados por su falta de rendimiento sexual, sin saber que los pesticidas inciden en los procesos hormonales de un modo notable”. Bracco enumera además alergias severas, cuadros de hipotiroidismo, cáncer de tiroides y de páncreas que superan su capacidad de asombro. “El estado de la salud pública aquí es inversamente proporcional al enriquecimiento sojero”, dice, contundente, y agrega que cada vez son más visibles los aumentos en las tasas de infertilidad por el efecto endócrino. “Fumigan a la noche y la gente se siente mal por la mañana, pero yo, por ejemplo, tengo alergia, me pica todo el cuerpo y la cabeza como si tuviese piojos, y me hice un análisis porque tengo alteraciones de la flora intestinal como si fuese celíaca, pero no lo soy. Me están apareciendo cosas que jamás tuve en la vida”, se queja ante Tiempo Argentino una vecina, que no quiere dar su nombre y que vive justo enfrente de un silo sojero, en San Jorge, ubicado peligrosamente junto a una plaza donde juegan niños. Héctor Lombarte, responsable de una de las obras sociales del pueblo, reseña que en los últimos tres años “los casos de cáncer que llegan hasta nuestra institución treparon un 400%”. La justicia llegó a San Jorge a partir de las denuncias de la vecina Viviana Peralta sobre el modo en que cada fumigación afectaba a su hija Ailén prácticamente desde que nació. Ellos, junto a otros vecinos del Barrio Urquiza, recurrieron a todas las instancias judiciales y, además, revolearon unos cuantos cascotazos contra los “mosquitos” (las máquinas fumigadoras), logrando que un fallo judicial impida la fumigación en esa zona que, pese a estar pegada a los campos, sigue siendo urbana. La medida, no obstante, sólo protege al barrio en cuestión y no a todo el pueblo. Como la provincia de Santa Fe se negó a realizar estudios, el fallo es precautorio: la prohibición ante el riesgo y amenaza para la salud. Pero en San Jorge, hasta las banquinas tienen soja.

EL FALLO ESCONDIDO

Ibarlucea es otro pueblo rural ubicado a pocos kilómetros de Rosario. Allí, la vecina María Celeste Bravo inició una acción legal contra la comuna santafesina por las fumigaciones que se realizan casi de modo constante y apenas a 100 metros de áreas habitadas. Tras más de 150 días desde la prescripción del plazo legal, todo sigue igual y el juez tampoco se expidió sobre la medida cautelar solicitada. Fuentes judiciales de la provincia de Santa Fe advirtieron a Tiempo sobre una posible recusación al magistrado Néstor Osvaldo García. Por lo pronto, el intendente de Ibarlucea, Juan José Prino, ordenó fumigar a 100 metros de la casa de la familia demandante, cuando la ley provincial estipula 500 como mínimo. La abogada ambientalista Graciela Gómez, que representa a la familia Bravo, denunció que recibió amenazas en la puerta del juzgado por parte de Eduardo Sosa, el abogado de la comuna de Ibarlucea. En el Juzgado Civil N°6 de Rosario no le dejan ver el expediente. “Una vez más la justicia santafesina demuestra que los jueces sojeros están al servicio de la producción, y del envenenamiento antes que la vida”, dijo Gómez, y agregó: “Los voy a llevar a la Corte de ser necesario, a mí no me van a correr con sus mañas procesales ni con sus amenazas.”

LA TIERRA SÍ, EL AGUA NO

Después de largos debates y contratiempos, Oscar Brasca, vecino de La Criolla, puede sonreír, aunque no del todo. “Hoy tenemos la zona urbana libre de pesticidas”, le cuenta a este diario, “pero no los ríos, lagunas y humedales que lindan con lotes sojeros, de modo que, aunque sea en forma parcial, la contaminación sigue. Medio Ambiente de la provincia hace caso omiso a las quejas que presentamos porque, luego de fumigar, dejan los residuos y bidones de glifosato tirados, inclusive cerca de tomas de agua”, subraya preocupado. Oscar es un referente en el norte de Santa Fe, por la experiencia adquirida durante años de lucha contra la fumigación. Cuenta que en el pueblo vecino, Vera y Pintado, “siembran hasta la última calle de la localidad”, pero advierte que parte de la batalla se gana educando: “Yo doy talleres en los colegios para que padres y chicos sepan sobre los peligros y puedan organizarse igual que nosotros.” Respecto de las escuelas, un dato más viene a pintar de lleno cuál es el panorama en la provincia fumigada. Hace tres meses, al menos tres escuelas rurales sufrieron las consecuencias de fumigaciones en terrenos linderos e inclusive en el mismo espacio ocupado por los colegios, según denunció el Centro de Protección a la Naturaleza (Cepronat). “Mosquitos y avionetas han realizado fumigaciones a escasísima distancia de establecimientos educativos, algunas a 15 metros, y con los alumnos en clase”, informó esa ONG en un comunicado. Las escuelas rurales primarias de Paraje El Ombú (cerca de Arroyo Seco), Villa Amelia (vecina a Rosario) y Paraje El Mataco fueron las últimas, pero son apenas una muestra de lo que sucede con las más de 800 escuelas rurales de la provincia. Desde el Cepronat grafican: “Reciben las gotas de veneno sobre las cabezas de docentes y alumnos.”

FONTE: Diario Tiempo Argentino

Artigo – A Monsanto no Brasil: Discursos publicitários e tecno-científicos sobre os transgênicos

Marcos Reigota

Resumo

O trabalho aborda as estratégias e práticas discursivas da Monsanto no Brasil em relação aos transgênicos e é um dos resultados da pesquisa em realização “Discursos contemporâneos sobre a natureza e as suas relações com a educação ambiental” financiada pelo Cnpq- Conselho Nacional de Pesquisa Científica.

O artigo é pautado em documentos publicitários difundidos pela Monsanto no Brasil e em artigos que mostram como que os transgênicos foram tema de controversos debates sociais, políticos e científicos, antes e depois da liberação da primeira safra de soja transgênica produzida clandestinamente no Brasil.

Como questionamento é apresentado o papel da educação ambiental frente aos desafios trazidos pela tecnociência (transgênicos) numa sociedade em que a influência política dos meios de comunicação de massa e a carência de cultura escolar de grande parte da população são características marcantes.

(*) Trabalho apresentado no VI Congresso do Conselho Europeu de Pesquisas sobre a América Latina (CEISAL) , na Universidade de Toulouse de 30/06/ a 03/07/2010- Esse texto é resultado de pesquisa realizada com Bolsa de Produtividade Científica do CNPq.

Marcos Reigota, Programa de Pós-graduação em Educação Universidade de Sorocaba
marcos.reigota@prof.uniso.br
marcos.reigota@pq.cnpq.br

Para acessar o artigo A Monsanto no Brasil: Discursos publicitários e tecno-científicos sobre os transgênicos, de Marcos Reigota, na íntegra clique aqui (arquivo no formato PDF, com 384 Kb)

FONTE: EcoDebate, 29/08/2011

O veneno está nas telas

Por Leandro Uchoas, no jornal Brasil de Fato:

O cenário era perfeito. Como palco, o Teatro Casa Grande, no Leblon, onde se deram alguns dos momentos mais importantes da resistência à ditadura. O filme, “O Veneno Está na Mesa”, uma bela síntese do trágico efeito à agricultura brasileira do uso de agrotóxicos. Como diretor, ninguém menos do que Sílvio Tendler, autor de clássicos como “Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá”. Para completar, o auditório de 500 lugares completamente tomado por um público ávido por fazer soar, em todo o país, as denúncias acachapantes do longa. O lançamento do aguardado filme na segunda-feira (25) teve a pompa que merecia.

As imagens começam com a denúncia mais terrível. Cada brasileiro consome, em média, 5,2 litros de agrotóxicos por ano. Desde 2008, nenhum outro povo, no mundo, consome tanto veneno. Logo nos primeiros 10 minutos, de um total de 50, sucedem-se denúncias assombrosas. Duas das empresas que produzem os agrotóxicos, Monsanto e Dow, produziram o agente laranja que os Estados Unidos lançaram sobre o Vietnã, exterminando milhões de vidas. Outras duas, Basf e Bayer, foram parceiras dos nazistas na produção dos químicos para exterminar povos considerados inferiores, como os judeus. Na voz de André Trigueiro, da Rede Globo, denúncias num tom de indignação incomum ao usualmente cordial jornalista: o metamidofós, princípio ativo proibido nos Estados Unidos, na Europa, na China e em boa parte da África é utilizado livremente no Brasil, que ainda decide se vai proibi-lo.

Parte da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o filme foi produzido com dificuldade, com a ajuda de movimentos sociais, ongs e instituições de saúde. Para alguns intelectuais, pesquisadores e lideranças, funcionou como uma denúncia desesperada, a ser propagada aos quatro ventos. A distribuição do material será feita a baixo custo. Segundo o diretor, a ideia inicial surgiu durante conversa pessoal com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, e ganhou força em um encontro posterior com João Pedro Stedile, do MST. Bastou, em seguida, o contato com a Campanha.

O filme também traz um depoimento da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional de Agricultura (CNA). A parlamentar é a figura mais importante do agronegócio no Congresso Nacional. Todos os movimentos políticos da CNA, seja de estímulo ao avanço degradante e criminoso do agronegócio, ou de criminalização dos movimentos sociais, passam por ela. Apesar de desnecessariamente longa, a exibição da fala serviu de síntese dos argumentos utilizados pela direita. Ela defende que o Brasil não se sustentaria sem o uso de agrotóxicos. Não explica, portanto, como os outros países do mundo consomem menos agrotóxico, mesmo sem contar com nossos incomparáveis recursos naturais. Nem dá pistas de como a humanidade se sustentou nos dez mil anos em que plantou e colheu sem uso de veneno.

O filme termina apontando saídas. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, estaria tomando medidas muito mais ousadas no sentido de impedir o avanço do agronegócio em seu país. E o jovem agricultor Adonai dá exemplo de luta contra as dificuldades para plantar e vender alimentos orgânicos (sem uso de agrotóxicos). Ele recusa os créditos bancários que lhe possibilitariam maior conforto, porque os bancos praticamente exigem uso de agrotóxicos. O filme mostra como, ao longo de três anos, Adonai recuperou um tipo de milho tradicional, através de experiências com as sementes, que lhe permitiram seguir apostando no orgânico.

A mensagem do agricultor Fernando Ataliba, de Indaiatuba (SP), sintetiza, em parte, o que representa a aposta do Brasil no agronegócio, que tem persistido mesmo com diferentes grupos políticos à frente do governo federal. “O que a Revolução Verde fez foi destruir e apagar todo o acúmulo de conhecimento da agricultura tradicional ao longo de seus dez mil anos, criando um negócio totalmente novo. E essa ‘novidade’, depois de tantos anos, está demonstrando que ela não dá certo. Ela está produzindo perda da produtividade do solo, perda dos mananciais, perda da biodiversidade, contaminação do solo, das águas, das pessoas, do ar, e mudanças climáticas. O que mais nós vamos esperar acontecer para a gente perceber que esse modelo ‘novo’ não é bom?”, pergunta.

O debate que sucedeu a exibição do filme funcionou como complemento as informações divulgadas. Os debatedores estavam tomados por uma emoção pouco comum. A razão é simples. As denúncias que o trabalho de Tendler trazem, apesar da notória gravidade, não encontram o espaço que merecem no debate social. Os motivos, o próprio filme mostra. As megacorporações por trás do agronegócio, com seu lucro astronômico – US$ 7 bilhões apenas em 2010 –, compram institutos de pesquisa, “seduzem” parlamentares através de financiamento de campanha, e calam setores da mídia. O resultado é que boa parte da população brasileira simplesmente desconhece que, todos os dias, tem venenos terríveis dentro de seu prato. A emoção de debatedores e parte do público era a de ver esses absurdos divulgados. Logo no início das falas, Tendler chorou.

“Esse mercado é concentrado, mundialmente, nas mãos de apenas 13 empresas. E seis delas controlam mais de 60% dele. A soma do patrimônio das três maiores supera o PIB da maioria dos países do mundo – apenas 70 deles não têm PIB menor” acusa Letícia Rodrigues da Silva, coordenadora do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos da Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A pesquisadora também denunciou a estratégia de judicialização utilizada pelas principais multinacionais da agroindústria. Utilizando recursos na Justiça, as empresas vão protelando as decisões, e permanecem com seu mecanismo nefasto de monopólio do setor.

O pesquisador Alexandre Pessoa, da Fiocruz, fez um paralelo das ideias apresentadas pelo filme com a realização, no Rio de Janeiro, em 2012, da Rio+20. Ele considera que, na conferência, as megacorporações vão apresentar falsas soluções à crise ambiental, preservando o mesmo modelo de exploração massiva de recursos. Para Nívia Regina, do MST, “o filme é a maturidade de um longo processo de luta, porque critica a hegemonia do paradigma produtivista. Temos que construir uma outra hegemonia, com base na agroecologia”. Nívia terminou sua intervenção conclamando a todos para que divulguem, amplamente, o filme de Tendler.

Segue os links do filme “O veneno esta na mesa” do cineasta Silvio Tendler.
O documentário denuncia a problemática causada pelos agrotóxicos, e faz parte de um conjunto de materiais elaborados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Parte – 1
Parte – 2
Parte – 3
Parte – 4

FONTE: Blog do Miro

Uso de herbicidas não diminuiu com as lavouras transgênicas

Contrariando as afirmações da indústria, dados oficiais do governo dos EUA mostram que o uso de herbicidas não diminuiu com as lavouras transgênicas

Segundo o Relatório de 2010 sobre o Uso de Químicos na Agricultura, divulgado no último mês pelo Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas do Departamento de Agricultura do governo dos EUA (NASS/USDA), o uso do herbicida glifosato, associado às lavouras transgênicas, aumentou dramaticamente ao longo dos últimos anos, enquanto o uso de outros herbicidas ainda mais tóxicos, como a atrazina, não diminuiu.

Ao contrário das recorrentes afirmações dos fabricantes de agrotóxicos e transgênicos de que a proliferação das lavouras transgênicas tolerantes à aplicação do glifosato resultaria na diminuição de seu uso, os dados mostram que o uso em geral de agrotóxicos permaneceu relativamente constante, enquanto o uso de glifosato mais do que dobrou em relação a cinco anos atrás.

O Relatório mostra que, nos estados avaliados, 25,8 milhões de kg de glifosato foram aplicados no último ano apenas em lavouras de milho. Em 2000 este número era de 2 milhões de kg. Em 2005 o valor era ainda menos da metade do atual: 10,4 milhões de kg. Nas regiões de cultivo intensivo de milho o aumento nas aplicações de glifosato foi ainda maior. O uso do herbicida no estado de Nebraska aumentou em mais de cinco vezes em apenas 7 anos, passando de 567 mil kg em 2003 para mais de 3 milhões de kg no último ano.

Os defensores da biotecnologia frequentemente dizem que se os agricultores estão aumentando o uso de glifosato isto se deve ao fato de que eles estão usando menores quantidades de herbicidas mais tóxicos, como a atrazina. Entretanto, os dados mostram outra coisa. Em 2000, 24,5 milhões de kg de atrazina foram aplicados nos estados avaliados. Tendo o uso de glifosato aumentado em mais de cinco vezes entre 2000 e 2005, era de se esperar que o uso de atrazina tivesse caído drasticamente. Entretanto, ela aumentou em mais de 1,3 milhão de kg, nos estados avaliados, passando para 26,8 milhões de kg em 2005. Em 2010 o uso de atrazina reduziu um pouco, tendo sido aplicados 23 milhões de kg – quantidade próxima dos 25,8 milhões de kg de glifosato aplicados.

A atrazina está ligada a sérios efeitos sobre a saúde humana, incluindo malformações em bebês e problemas nos sistemas endócrino e reprodutor. É também uma grande ameaça aos ecossistemas por provocar problemas imunológicos, hormonais e reprodutivos em espécies aquáticas. O próprio glifosato também está associado a uma série de problemas ambientais e de saúde. No Brasil, 80% das variedades transgênicas liberadas são para uso associado de herbicidas.

O aumento no uso dos herbicidas nas lavouras transgênicas tolerantes ao glifosato se deve, em grande parte, ao desenvolvimento de resistência nas espécies de mato que o herbicida pretende controlar (devido ao excesso de uso do produto). Com a perda de eficácia do veneno, os agricultores tendem não só a utilizar maiores quantidades de glifosato, como a recorrer, de forma complementar, a outros herbicidas ainda mais tóxicos. Isto está levando também as empresas de biotecnologia a investir no desenvolvimento de plantas transgênicas tolerantes a múltiplos herbicidas, como glifosato e 2,4-D (componente do famoso Agente Laranja) ou glifosato e acetocloro. Ou seja, falsas soluções que também levarão, invariavelmente, ao aumento no uso de venenos – e o pior: cada vez mais tóxicos.

Extraído de:  Beyond Pesticides Daily News Blog, 03/06/2011 (via GM Watch).

FONTE: http://bit.ly/nRe49j

Mercadante veta redução de prazos para liberação de transgênicos

Boletim POR UM BRASIL ECOLÓGICO, LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS

Número 542 – 17 de junho de 2011

Car@s Amig@s,

A primeira aparição do ministro da Ciência e Tecnologia Aloizio Mercadante na plenária da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) teve como mote explicar sua decisão de não aceitar a alteração no regimento interno do órgão, que reduzia de 90 para 30 dias o prazo mínimo de análise dos pedidos de liberação comercial de transgênicos.

Pelas regras que haviam sido aprovadas na reunião plenária de maio, mediante solicitação fundamentada do relator do processo, o pedido por mais 30 dias poderia ou não ser aceito pelo coordenador da subcomissão. Excepcionalmente, mais 30 dias poderiam ser concedidos na superveniência de novos documentos julgados pertinentes, audiência pública ou motivos de força maior. Até hoje não se tem notícia de novo documento ou aporte feito em audiência pública que a CTNBio tenha julgado pertinente. Em suma, o novo prazo máximo, consideradas todas essas hipotéticas exceções, seria igual ao mínimo que até hoje funcionou.

A discussão sobre alterações no regimento da Comissão entrou em pauta para que fossem feitos os ajustes exigidos por força da decisão judicial que mandou a CTNBio definir seus procedimentos para concessão de sigilo aos processos que analisa.

Não fosse o gesto do ministro, as empresas passariam a se sentir no direito de exigir da Comissão o julgamento de seus pedidos um mês após o protocolado. Não são raros os dossiês de liberação comercial com mais de mil páginas. Além disso, todos os integrantes da Comissão têm dedicação integral a suas atividades profissionais e voluntariamente doam parte de seu tempo ao trabalho na CTNBio. Ou seja, a intervenção do ministro foi certeira.

Mas nem todos pensam assim. Edilson Paiva, presidente da Comissão, ao anunciar ao plenário que esperava a visita do ministro, subiu o tom para dizer que Mercadante fora mal orientado por seus assessores, que se basearam em inverdades publicadas na imprensa e não na ciência e assim o induziram ao erro.

Ao contrário, mostrando estar muito bem informado, Mercadante resgatou sua trajetória de parlamentar de oposição para defender os mecanismos que a minoria tem para fazer valer suas posições em espaços onde diferentes visões estão em disputa, como o Congresso Nacional ou a própria CTNBio. Segundo ele, é o regimento interno desses espaços que resguarda esses direitos das minorias e que viabiliza a necessária “pluralidade de visões”. E sendo assim, o ideal seria que o regimento só fosse modificado por consenso e após aprovação do departamento jurídico. Acrescentou ainda que a “CTNBio é espaço de disputa e deve agir com transparência”, para manifestar apoio à proposta de que suas reuniões sejam transmitidas via internet ao vivo. A estrutura necessária está pronta e toda disponível, basta só a CTNBio sinalizar que quer.

Tivesse assistido parte da plenária, o ministro teria visto vários integrantes da Comissão defendendo o direito de as empresas decidirem quais dos estudos exigidos na lei devem ser apresentados e descobriria que, na opinião desses e do presidente do órgão, se a empresa assim decidir não cabe à CTNBio exigir tais estudos. Teria visto também o representante do Itamaraty dizer que a resolução normativa que define esses estudos já caducou e é contra a ciência. A chamada RN5 foi aprovada em 2008 com seu voto e ativa participação na definição do conteúdo.

Dispensando estudos como os que avaliam os impactos à segunda geração de animais de laboratórios alimentados com organismos transgênicos, foram liberadas ontem mais duas variedades de milho e uma de algodão (TC1507 x MON810 x NK603, da DuPont e MON88913, da Monsanto, respectivamente).

Mercadante era senador à época da elaboração da atual lei de biossegurança e foi ativo na sua definição. Segundo ele, sua aprovação derrotou a ideia de moratória e implementou no país um modelo no qual as liberações são feitas de modo regulado. A primeira parte é verdade, basta ver que o país é hoje o segundo maior plantador de transgênicos no mundo e o maior usuário de venenos agrícolas. Se ele se aproximar mais da CTNBio verá quão longe estamos de um uso controlado da tecnologia.

Leia a matéria publicada no Jornal Valor Econômico:

Ministro veta redução de prazo para liberação de transgênicos

Valor Econômico, 17/06/2011

O ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, interveio diretamente ontem na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) ao rejeitar a redução dos prazos máximos de análise de liberação comercial de organismos geneticamente modificados no país. A alteração, feita no novo regimento do colegiado e aprovada pelo plenário da comissão em maio, transformou o prazo mínimo de 90 dias em prazo máximo para análise dos relatores. Sob o argumento de respeito a questões legais, Mercadante vetou a redução dos prazos e pediu “pluralidade” nas discussões sobre a liberação dos transgênicos.

Além da inédita intervenção, o ministro deu novos contornos à atuação da comissão, delimitando o terreno ao grupo majoritário “pró-transgênicos” e determinando o “amplo debate” como regra geral nas próximas reuniões da CTNBio. Foi a primeira vez que Mercadante esteve na reunião da comissão em seis meses de gestão. “Quando vi as mudanças [no regimento], pedi não a interferência do MCT, mas uma avaliação com segurança. Não podemos agredir o espírito ou a essência da lei. Há procedimentos para o uso de transgênicos”, afirmou o ministro aos membros da comissão. “As mudanças no regimento têm que ter amplo debate e consenso, além de assegurar questões legais”. E defendeu o “direito de obstruir” as liberações da minoria que discorda da celeridade na avaliação dos processos. “A maioria tem interesse em dar mais agilidade, mas a minoria tem direito de obstruir. É um instrumento de negociação da minoria”, afirmou, comparando o caso ao processo legislativo.

Pouco antes, o presidente da CTNBio, Edilson Paiva, havia dito que o ministro fora “mal orientado” por sua assessoria ao decidir pelo veto às mudanças no regimento. “Ele foi mal orientado, propôs manter o prazo anterior, mas encurtou em 30 dias porque [o prazo máximo] passou de 120 dias para 90 dias. Ele foi mal assessorado. Não vamos mais mexer nisso”. As críticas provocaram constrangimento entre os membros. A posição de Mercadante surpreendeu aos membros da comissão. Em geral, os ministros de Ciência e Tecnologia, ao qual a CTNBio está vinculada, sempre foram mais simpáticos, quando não entusiastas, dos produtos transgênicos, como o ex-ministro Sergio Rezende.

Pela primeira vez, um ministro faz apelos por divergências internas e disputas em nome da transparência. “Vamos manter o diálogo, a disputa entre agricultura e meio ambiente, entre a pressa e a cautela, ou até com quem é contra. Isso é melhor do que ouvir um lado só. Vamos avaliar os dois polos. Não podemos render uma à outra. Seria um erro histórico”, afirmou. Mercadante disse que mudanças no regimento interno precisam seguir um rito. “Isso preserva a comissão na legalidade e o MCT na defesa da lei. Se quiserem mudar, peço antes uma consulta à área jurídica, um parecer jurídico prévio do MCT”, orientou o ministro. E reafirmou a necessidade de “cuidados indispensáveis” para evitar “atropelos”, uma velha reivindicação de ONGs de defesa do consumidor e dos ambientalistas.

Em sua participação, Mercadante defendeu posições que modificam as relações internas da CTNBio. “Vai ser um espaço de disputa de convicções, mas com amplo espaço para debate. Precisamos de rigor científico com pluralidade e cuidado na análise. Mas também manter o calor do debate e a divergência para avançar nesta fronteira do conhecimento”. E foi além no redesenho do colegiado: “Além de aprovar ou vetar transgênicos, o papel desse fórum é aprimorar as políticas públicas”, disse. “Nas sementes transgênicas, tem gente que acha que o risco já está posto. Não tivemos, até agora, nenhum problema. Mas vamos ser rigorosos, debater e respeitar a pluralidade para dar segurança a quem consome alimentos do Brasil”. O ministro lembrou as barreiras não tarifárias impostas à agricultura brasileira. “O rigor é a garantia para o futuro. Essa comissão tem que ser bastante rigorosa com segurança”.

Mercadante pediu transparência e disse que enviará cartas a outros ministros para recompor ausências na composição da CTNBio.

Em março, organizações e movimentos protocoloram no Ministério documento sobre a liberação acelerada de transgênicos no Brasil e requereram cumprimento do princípio da precaução. Para a sociedade civil, a presença e o veto de Mercadante podem indicar uma mudança de postura do ministério quanto ao tema.

FONTE: http://bit.ly/oeOCz3

Planeta Osasco divulga Carta-resposta em postura sobre Trangênicos

São Paulo, 22 de junho de 2011.

Carta-resposta Planeta Osasco

Prezado Gabriel Martiniano (Editor PlanetaOsasco),

Tive a oportunidade de ler o artigo “Presidente da CNTBio vai beber glifosato?”, publicado no portal Planeta Osasco (19 de junho de 2011), e entendo, como pesquisador na área de biotecnologia, que há uma série de inverdades nas informações prestadas. Embora acredite que existam também equívocos nas declarações respeito dos defensivos químicos, vamos nos ater à questão que envolve diretamente os transgênicos.

O texto do médico veterinário e professor da Universidade Federal de Pelotas, Althen Teixeira Filho, presta um desserviço à população brasileira na medida em que traz ideias absolutamente equivocadas a respeito da biotecnologia e dos alimentos transgênicos. Não apenas isso, agride os pesquisadores responsáveis pelas avaliações de biossegurança da CTNBio, doutores em diferentes áreas da ciência, ao associar os transgênicos a alguma atividade criminosa.

O processo regulatório brasileiro é reconhecido internacionalmente como um dos mais rígidos do mundo, e essa mesma conduta é aplicada em todos os âmbitos da atuação dos membros da CTNBio. A Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/05) exige que qualquer organismo geneticamente modificado (OGM) passe pela avaliação criteriosa da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, a CTNBio.

Trata-se de um grupo de 54 doutores em todas as áreas relacionadas à segurança dos transgênicos, como meio ambiente, saúde humana, saúde animal, agricultura, saúde do trabalhador, entre outras. Ou seja, são cientistas, representantes de vários Ministérios e da sociedade civil. Eles avaliam, um a um, cada pedido de pesquisa ou comercialização de OGM no Brasil, e só liberam um produto transgênico após analisar o resultado de diversos testes de biossegurança.

Por essa razão, os organismos geneticamente modificados disponíveis são submetidos a rigorosas análises toxicológicas, alergênicas, nutricionais e ambientais, avaliações pelas quais não passam os alimentos convencionais. Só depois disso são aprovados pela CTNBio para cultivo e consumo. As avaliações de segurança seguem padrões internacionais definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), entidades que já manifestaram apoio aos alimentos GM, a exemplo de outras, como a Academia de Ciências do Vaticano.

Não é verdade também, como quis enfatizar o autor, que os transgênicos representem riscos à saúde. Nunca foi registrado impacto negativo na saúde humana ou animal nos mais de 15 anos de amplo uso em 50 países. Afirmação contrária a essa não encontra respaldo na literatura científica mundial. Não existe nenhuma justificativa técnica ou científica que sustente esse mito. Apenas para citar uma referência recente e de alta confiabilidade, a Comissão Europeia divulgou, no fim do ano passado, um balanço dos estudos, financiados pela própria instituição na última década, a respeito dos transgênicos. O levantamento concluiu que os transgênicos são tão seguros quanto suas variedades convencionais para a saúde e o meio ambiente. Dos 50 projetos de pesquisa apresentados na publicação, trabalhos que envolveram mais de 400 grupos de investigação, a principal conclusão é a de que “não há nenhuma evidência científica associando os OGMs a maiores riscos para o meio ambiente ou para a alimentação se comparados aos apresentados por plantas convencionais”.

Especificamente sobre o estudo de Aziz Aris e Samuel Leblanc mencionado no texto, dois pontos são altamente relevantes e não foram mencionados pelo Prof. Teixeira Filho:

1) Não há nenhuma evidência que permita afirmar que a presença do gene da bactéria Bacillus thuringiensis, especialmente da toxina Cry1Ab,  se deu em razão do consumo de organismos geneticamente modificados (GM), derivados da biotecnologia.  Há mais de duas décadas, a proteína desta bactéria, que é naturalmente encontrada no solo, passou a ser utilizada na agricultura convencional – e é usada hoje como inseticida em diferentes tipos de agricultura, inclusive na orgânica, e até em jardinagem. Portanto, integram a nossa alimentação diária há muito tempo.

2) A toxina Cry1Ab passou por rigorosos testes de biossegurança, inclusive com relação ao consumo por humanos e animais, e não oferece nenhum risco à saúde humana ou animal, uma vez que apenas determinados insetos-pragas são suscetíveis a ela.

3) A probabilidade de uma proteína, que passa pelo aparelho disgestório e outras interferências químicas, ser transferida para o soro da mãe ou do feto é baixíssima. Na remota hipótese de um fragmento da proteína Bt ter sido transferido com alguma integridade, ele não seria nocivo.

O autor sugere ainda que os cultivos transgênicos teriam a necessidade de um número cada vez maior de aplicações de defensivos químicos. Sobre isso, há diversos estudos científicos internacionais que ressaltam exatamente o contrário: os benefícios oriundos do cultivo de transgênicos.

Um exemplo é a pesquisa da consultoria britânica PG Economics, segundo a qual a redução de defensivos na agricultura mundial entre 1996 e 2009 foi avaliada em 393 milhões de kg de ingredientes ativos. (Brookes and Barfoot, 2010). Também existem dados locais sobre o assunto colhidos pela consultoria Céleres. De acordo com o levantamento, nos próximos 10 anos, o Brasil pode deixar de gastar cerca de US$ 80 bilhões com a adoção da biotecnologia agrícola. A estimativa leva em consideração a redução do uso de água e combustível e diminuição na emissão de dióxido de carbono em razão da menor número de pulverizações necessárias para as culturas geneticamente modificadas.

No caso específico da soja tolerante a herbicida, de fato pode ocorrer elevação do volume de ingrediente ativo aplicado nas culturas. Contudo, este aumento se dá em substituição a produtos de classe toxicológica mais agressiva ao meio ambiente e à saúde do trabalhador por produtos de classe toxicológica mais branda. Ou seja, não há prejuízo para a saúde do agricultor ou do consumidor.

É relevante destacar que os defensivos químicos são utilizados em quaisquer culturas, independentemente de serem geneticamente modificadas (GM), convencionais ou até mesmo orgânicas, visto que algumas substâncias químicas são admitidas para o uso inclusive nessas produções. Acidentes com produtos químicos devem ser evitados por meio do uso correto de equipamentos de proteção e da aplicação conforme as recomendações técnicas. Os produtos químicos são usados de modo seguro na agricultura há muitos anos, sempre que essas recomendações são seguidas.

Para finalizar, é inquestionável a necessidade de aumentar mundialmente a oferta de alimentos em razão do aumento da população e do poder de compra dos consumidores. Esse alerta vem sendo feito pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e outras entidades internacionais e, recentemente, reforçado pelo relatório Foresight Report on Food and Farming Futures, publicado no Reino Unido.

De acordo com os especialistas, a produção de alimentos deverá crescer 40% nas próximas duas décadas para que possamos evitar o aumento da fome global. Segundo as estimativas, a população mundial chegará a aproximadamente 8 bilhões de pessoas em 20 anos, o que gerará um aumento da demanda não apenas por comida, como também por água potável (30%) e energia (50%).

Claramente, não haverá uma solução única que possibilite alcançar essa meta. Serão necessárias ações integradas que proporcionem mudanças nos sistemas de produção, gerando aumento da oferta de alimentos em consonância com práticas sustentáveis e preservação do meio ambiente.

Objetivamente, embora a agricultura orgânica e a familiar sejam importantes, esses sistemas de produção não possuem condições e eficiência para solucionar o problema. A agricultura comercial, conduzida com padrões elevados de produtividade e qualidade, é uma parte fundamental do desafio de prover alimentos, fibras e biocombustíveis para todos os mercados. A exemplo do que ocorre no Brasil, tais ganhos de produtividade são os principais aliados da preservação dos recursos naturais.

Portanto, é bastante clara a tentativa do autor em criar um fato negativo sobre o uso seguro de transgênicos, mesmo na ausência de resultados científicos que fundamentem a opinião. Espero contribuir, com esta carta, para que o leitor do portal tenha acesso a uma informação mais sólida a respeito dos transgênicos e, desta forma, possa compreender melhor a importância dos avanços tecnológicos e científicos na produção de alimentos seguros e sustentáveis.

Portanto, é bastante clara a tentativa do autor em criar um fato negativo sobre o uso seguro de transgênicos, mesmo na ausência de resultados científicos que fundamentem a opinião. Porém, a ausência de base científica de determinadas afirmações do autor, tais como as comparações inapropriadas entre os efeitos de baixíssimas doses de hormônios e agroquímicos, e também de proteínas transgênicas, retiram qualquer credibilidade do texto.

Marcelo Gravina – Engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Fitopatologia pela Universidade de Wisconsin–Madison (EUA). É professor associado da UFRGS e conselheiro do CIB.

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