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Os 40 anos sem Josué de Castro

Sergio Caldieri

Josué Apolônio de Castro nasceu em 5 de setembro de 1908, em Recife, e morreu em 24 de setembro de 1973, durante o seu exílio em Paris. Médico, geógrafo, escritor, filósofo, sociólogo e político. Estudou Medicina em Salvador e Filosofia na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, foi uma das personalidades que mais se destacaram no cenário brasileiro e internacional não só por seus trabalhos científicos sobre a fome no mundo, mas também por sua atuação no plano político e em organismos internacionais.

O sociólogo da fome, como era conhecido mundialmente, foi professor de Geografia Humana na Faculdade Nacional de Filosofia; pertenceu ao Serviço Técnico de Alimentação Nacional; presidente do Conselho da Organização de Alimentação e agricultura das Nações Unidas (FAO); do comitê governamental da Campanha de Luta contra a Fome, (ONU); do conselho do Comitê Intergovernamental para as Migrações Européias; do Centro Internacional para o Desenvolvimento, em Paris, e do Comitê Mundial por uma Constituição dos Povos, em Denver (EUA); além de vice-presidente da Associação Parlamentar Mundial em Londres, e professor da Sorbonne em Paris.

Josué de Castro escreveu 29 livros, traduzidos em mais de 25 línguas. Preocupado com o futuro, foi o pioneiro na defesa do meio ambiente, um semeador de idéias que encantava o público com seus discursos. Darcy Ribeiro o considerava “O homem mais inteligente e brilhante que eu conheci”.

GEOPOLÍTICA DA FOME

Era famoso nos EUA e Europa também como “advogado do Terceiro Mundo”, depois do sucesso do livro “Geopolítica da fome”. Em 1971, foi indicado pela segunda vez ao Prêmio Nobel da Paz. Em 1958, foi eleito deputado federal com 33.657 votos, o mais votado do PTB no Nordeste. Seu companheiro de chapa para deputado estadual era Francisco Julião, advogado e líder das Ligas Camponesas. E seria indicado para disputar o governo do Estado com apoio do ministro do Trabalho João Goulart.

Josué foi um dos fundadores da Academia Nacional de Cultura junto com os amigos Mário de Andrade, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Anísio Teixeira, Cecíia Meireles, Cândido Portinari, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, Barbosa Lima Sobrinho, Celso Furtado, entre outros.

Quando o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, liderou a Ação da Cidadania Contra e Fome, a Miséria e pela Vida, em 1992, teve a patente do pioneirismo de Josué de Castro. O ex-presidente da ABI Barbosa Lima Sobrinho, disse: “O Brasil tem duas cartas de descobrimento. A primeira é a de Pero Vaz de Caminha. A segunda é Geografia da Fome, de Josué de Castro.

Em 1955, visitou a URSS em plena guerra fria, e conseguiu a façanha de ser reconhecido, por seus estudos, tanto pelos soviéticos como pelos norte-americanos. Os países inimigos consagraram o estudo de Josué como fundamental para se pensar a existência da humanidade na mancha subdesenvolvida – como produto do desenvolvimento e a miséria na África, parte de Ásia e na América Latina. Na escola do MST, em Veranópolis (RS), os ensinamentos do sociólogo servem de base teórica para a organização do movimento dos sem-terra.

CASSADO NO AI-1

Logo após o golpe militar de 1964, Josué teve os direitos políticos cassados pelo Ato Institucional Nº 1 juntamente com Miguel Arraes, Leonel Brizola, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e outros, considerados perigosos agentes do comunismo.

 Seu crime: ter denunciado ao mundo a vergonha da fome como obra dos homens. Viveu exilado durante nove anos até a sua morte, aos 65 anos, em Paris. Quando o SNI autorizou a sua volta, em 28/9/1973, Josué de Castro já estava morto desde o dia 24. Somente vestido de caixão, para lembrar os versos de João Cabral de Mello Neto sobre os camponeses pernambucanos, os militares permitiram a sua volta. Mas era um homem grande demais para caber em sete palmos de terra. Enquanto houver fome, latifúndio e subdesenvolvimento, ele estará vivo entre todos nós.

A morte do sociólogo da fome foi manchete nos jornais do Brasil, e nos principais jornais da Europa e Estados Unidos. E Josué havia confidenciado aos amigos no exílio parisiense, em 1973: “Não se morre só de enfarte, ou de glomero-nefrite crônica… morre-se também de saudade”.

FONTE: Tribuna da Imprensa

Prêmio Josué de Castro incentiva pesquisas nas áreas de nutrição e saúde

Iniciativa reconhecerá estudos a favor da alimentação saudável e do combate à fome e à desnutrição

Até o dia 23 de agosto estão abertas as inscrições para o Prêmio Josué de Castro. Promovido pelo Governo do Estado de São Paulo por meio do Consea-SP (Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável), o concurso promove pesquisas e programas que incentivam a alimentação saudável e a segurança alimentar.

Dentro os quesitos, serão avaliados o estímulo à participação social, a melhoria de qualidade de vida, o efeito multiplicador e ainda as formas de aplicação e execução do trabalho apresentado.

No dia 16 de outubro, a premiação reconhecerá duas categorias: melhor pesquisa científica e melhor programa ou projeto de política pública. Podem participar universidades (públicas ou privadas), instituições de pesquisa públicas ou privadas e órgãos públicos municipais ou estaduais de São Paulo.

SERVIÇO

Prêmio Josué de Castro
Inscrições até 23 de agosto

Aqui: ConseaSP

O que a FAO pode e deve fazer para acabar com a fome no Rio Grande do Sul e no Brasil

Jacques Alfonsin (*)

Estará em Porto Alegre, no dia 24 deste janeiro, para um debate a ser realizado no salão Negrinho do Pastoreio do Palácio Piratini, o Dr. José Graziano da Silva, diretor geral da FAO (Organização das nações unidas para a alimentação e a agricultura). Trata-se de uma oportuna iniciativa tomada em parceria pelos governos da União e do Estado, do Consea e dos Conselhos de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República e do Rio Grande do Sul, visando ampliar o conhecimento dos graves problemas gerados pela fome e das políticas público-privadas capazes de solucioná-los.

Além do conferencista, falarão sobre o tema do Encontro, “A importância da sociedade civil e do setor privado para a segurança alimentar e nutricional”, o governador Tarso Genro, representantes dos CDES promotores do evento e interessadas/os inscritos para opinarem sobre a matéria ou questionarem os expositores.

José Graziano da Silva já coordenou, no passado, o programa Fome Zero, durante o primeiro governo Lula. Segundo estimativas, essa política pública retirou, somente nos primeiros cinco anos de sua implementação, mais de vinte e quatro milhões de brasileiras/os da indigna condição de famintas/os. [1]

Embora programas sociais como o Bolsa Família, sucessor do Fome Zero, e o Minha Casa Minha Vida possam ser invocados como exemplos de respeito a direitos sociais como são os de alimentação e moradia, já é possível perceber o quanto ainda há por fazer. De acordo com publicação da Fian-Brasil – seu presidente internacional, professor Irio Conti, uma das presenças aguardadas neste Colóquio do dia 24 – os percentuais relativos a gente que passa fome no Brasil, por exemplo, mostram que ainda somos vítimas de uma profunda e inaceitável injustiça social:

“… mesmo com os consideráveis avanços das políticas de Segurança Alimentar e Nutricional – SAN – no Brasil, que só com o Programa Bolsa Família, por exemplo, alcançou 12,4 milhões de famílias, com recursos da ordem de R$ 11,8 bilhões, a insegurança alimentar persiste em muitos lares brasileiros. Não existe consenso sobre o percentual de insegurança alimentar existente no Brasil. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios – PNAD, o número de domicílios brasileiros que se encontrava em algum grau de insegurança alimentar caiu de 34,9% para 30,2% entre 2004 e 2009. Isso significa que 65,6 milhões de pessoas residentes em 17,7 milhões de domicílios apresentavam alguma restrição alimentar ou, pelo menos, alguma preocupação com a possibilidade de ocorrer restrição devido à falta de recursos para adquirir alimentos. [2]

Às melhorias das condições econômicas do país nos últimos tempos, portanto, reconhecendo o país como a sexta economia do mundo, há de se contrapor o desafio representado pela permanência de um percentual de povo desse tamanho (30,2º) ainda sujeito à insegurança de saber se vai se alimentar hoje ou amanhã. Acrescentando-se a tal realidade os riscos de outra doença grave do modelo econômico que preside a forma de exploração capitalista da terra no Brasil e no Estado, como adverte o presidente da Fian, pode-se avaliar o quanto de urgência está implicada nas medidas exigidas para se enfrentar e vencer a fome:

“A insegurança alimentar e nutricional não resulta apenas da desnutrição por escassez ou falta de alimentos. Há também um aumento de várias doenças decorrentes de produtos tóxicos e agrotóxicos em alimentos consumidos no cotidiano, além das altas taxas de sobrepeso e obesidade que preocupam e requerem medidas consistentes de reversão a curto e médio prazos. Os indicadores mostram que no mundo convive um número crescente de vítimas de ambas as formas de insegurança alimentar e nutricional. Isso tem estreita relação com o modelo de produção agrícola, baseado no agronegócio, que concentra terra, renda, tecnologias, insumos, patentes das sementes e medicamentos. Ou seja, as cinco ou seis principais empresas multinacionais que produzem e controlam as sementes transgênicas, os agrotóxicos e agroquímicos nocivos à saúde humana são as mesmas que controlam a indústria de medicamentos para “curar” os efeitos de seus danos, alimentando este círculo vicioso.” [3]

Confirma-se assim, mais de meio século depois, a lição de um dos brasileiros mais lembrados a ocupar o cargo, hoje assumido por José Graziano da Silva. Josué de Castro, autor de obras clássicas como “Geografia da fome” (1946) e a “Geopolítica da fome” 1951) dizia: “Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens contra os homens”. Perseguido pela ditadura militar imposta ao país em 1964, Josué foi obrigado a se exilar em Paris, falecendo em 1973, possivelmente pela dor de ver-se expulso de sua terra e de sua gente.

Sua filha, Anna Maria de Castro, em página igualmente disponível na internet, mostra como continua vivo e atual o pensamento do seu pai: “Sabia dos males que a nutrição deficiente, nas crianças, poderia acarretar, e ajudou a formular a política de merenda escolar, iniciativa que ainda hoje atende a expressivo número de estudantes em nosso País. Na agricultura familiar, tinha certeza, estaria a melhor forma de fixar o homem no campo e possibilitar sua alimentação. Assim, combateu o latifúndio e defendeu a reforma agrária.”

A relevância do tema, pois, no colóquio do dia 24, oferecendo a oportunidade de discuti-lo da maneira mais ampla e aberta, quando aqui estarão sendo realizadas várias atividades ligadas ao Forum Social Mundial, espera-se conte com a participação de movimentos sociais, da Fian já lembrada acima, ONGs, sindicatos, associações e partidos em cujos estatutos e objetivos figurem prestações de serviço a direitos sociais como os da alimentação e moradia.

Direitos humanos fundamentais como esses não gozam do respeito, das garantias e da autonomia próprias dos direitos patrimoniais. Dependem muito de políticas públicas e de previsões orçamentárias cujos percentuais de execução financeira raramente lhes reconhecem prioridade. Cristovam Buarque deu convincente testemunho desse fato em seu estudo “Segunda abolição”, demonstrando, em números, como são frágeis os argumentos contrários à possibilidade dessas políticas serem implementadas com o ritmo e a eficácia que de sua urgência decorrem, em favor de casa e comida para o povo pobre, sem as dificuldades costumeiramente alegadas como impeditivas das reformas estruturais (agrária e urbana principalmente) de tanta utilidade social.

Será hora, então, de se conferir quanto a lei orçamentária do Estado para 2012, por exemplo, reserva para a Secretaria de Agricultura e para a Secretaria de Desenvolvimento rural e cooperativismo; quanto ficou reservado para o Incra, igualmente, no orçamento da União; como as Câmaras Temáticas dos CDES da Presidência da República e do Estado gaúcho poderão acompanhar e fiscalizar a aplicação dos recursos destinados a tais unidades administrativas. Todo o mundo sabe que a palavra separada da ação é vã. Dependendo do interesse e do compromisso com a justiça social dos participantes deste evento, todavia, espera-se que os seus efeitos cheguem à mesa de quem ainda não tem pão.

[1] Biografia de José Graziano da Silva, disponível na internet.

[2] Os dados são do levantamento suplementar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ver o site da Fian na internet.

[3] Dia mundial da alimentação: da crise à estabilidade. (16/10/2011). Disponível na internet.

(*) Procurador do Estado aposentado, mestre em Direito pela Unisinos, advogado e assessor jurídico de movimentos populares.

FONTE: RS URGENTE

Uma pessoa com fome não é livre

Cidade do Vaticano, 30 jul (RV) – Imagens da fome que sacodem a nossa consciência continuam girando o mundo, trazendo às nossas casas um drama de milhões de pessoas que sobrevivem, dia após dia, com a ajuda humanitária de outros países, quando essa chega. Estamos falando do drama da seca que afeta os países do chifre da África, a pior dos últimos 60 anos. Segundo diretor da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, Jacques Diouf, são necessários 1 bilhão e 600 milhões de dólares nos próximos 12 meses.

O Banco Mundial decidiu repassar 500 milhões de dólares. O Brasil está entre os 10 principais doadores com 34,5 milhões de Reais em alimentos.

O drama da fome que vivemos é vergonhoso. A situação a que chegamos numa chamada “Civilização Moderna”, evidencia de modo gritante os muitos abismos que a mesma construiu como o drama da fome que mata todos os dias milhões de pessoas em todo o mundo, a maior parte crianças. Ao mesmo tempo esse mesmo “mundo civilizado” apresenta outra face da medalha onde a obesidade, por erros e excessos alimentos, deforma toda uma geração de crianças e jovens. É um mundo de contrastes entre luxo e lixo, riqueza material e miséria moral.

Mas por que a fome não acaba? Pergunta legítima. Talvez a resposta seja simples, mas ao mesmo tempo complicada. Aparentemente, a fome não existe por carência na produção de alimentos e sim pela má distribuição de riquezas, principalmente nos países pouco desenvolvidos, em que o capital é concentrado nas mãos da minoria e em detrimento à maioria. A ganância de alguns pisoteia o desejo de muitos de ter uma vida digna. No mundo quase um bilhão de pessoas dorme com fome toda noite. Como isso não pode sacudir a nossa consciência todas as vezes que colocamos a cabeça no travesseiro para dormir? Segundo informações de agências de notícias internacionais, é irônico o fato de que, no mundo, é usado mais dinheiro em campanhas contra a obesidade, do que contra a epidemia ”FOME”.

A fome deriva, antes de mais, da pobreza. A segurança alimentar das pessoas depende essencialmente do seu poder de compra, e não da disponibilidade física de alimentos. A fome existe em todos os países: voltou inclusive a aparecer nos países europeus, tanto do Oeste como do Leste. Contudo, a história do século XX ensina que a pobreza econômica não é uma fatalidade. Verifica-se que muitos países progrediram economicamente e continuam a fazê-lo; outros, pelo contrário, sofrem uma regressão, vítimas de políticas – nacionais ou internacionais – assentes em falsas premissas.

A fome pode resultar ao mesmo tempo de políticas econômicas inadequadas e de estruturas e costumes pouco eficazes e que contribuem para destruir a riqueza dos países. Deriva também de comportamentos lamentáveis a nível moral: busca egoísta do dinheiro, do poder e da imagem pública; a perda do sentido de serviço à comunidade; sem esquecer o importante grau de corrupção, sob as mais diversas formas.

Os dados falam claramente: quase 1 bilhão de pessoas desnutridas no mundo; 11 mil crianças morrem de fome a cada dia; Um terço das crianças dos países em desenvolvimento
apresentam atraso no crescimento físico e intelectual. Uma pessoa a cada seis padece fome no mundo.

Um dos grandes brasileiros da nossa história, o sociólogo Josué de Castro nos seus trabalhos de pesquisa e denúncia já dizia em meados do século passado que o “que divide os homens não são as coisas, são as idéias de que eles têm das coisas, e as idéias dos ricos são bem diferentes das idéias dos pobres. A fome não é um fenômeno natural, mas sim político”. Isto é, não depende nem é resultado dos fatos da natureza, mas sim é fruto de ações dos homens, de suas opções, das escolhas que fazem para os seus países.

É necessário o empenho de todos para mudar a situação de milhões de pessoas que padecem a fome. Os países ricos, os potentes da terra devem ajudar e dar a sua contribuição. Quem sabe, assim, as populações africana, asiática, latino-americana possam ter melhores condições de vida.

A situação precisa ser enfrentada, pois uma pessoa faminta não é uma pessoa livre. (Silvonei José)

FONTE: http://bit.ly/oxUCYj

FAO: José Graziano reencontra Josué de Castro

Vandeck Santiago

Dos últimos diretores-gerais da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o recém-eleito José Graziano da Silva é o que chega com as melhores condições para exercer o cargo e renovar a organização. O atual diretor-geral, Jacques Diouf, é senegalês; o antecessor dele, Edouard Saouma, libanês. Somados, os mandatos dos dois chegam a incríveis 35 anos. Mas, fora do Senegal, do Líbano e de setores mais diretamente envolvidos nas questões da Organização, Diouf e Souma são dois nomes desconhecidos.

Não que isso signifique um juízo de valor de uma eventual incapacidade deles na gestão da FAO; é antes uma constatação de que tem sido difícil a tarefa de ampliar os poderes da instituição para além dos seus limites. Pode ser que amanhã estejamos dizendo algo semelhante de José Graziano. Mas todos os indicativos hoje existentes apontam em outra direção. Fazendo-se concessão a uma dose mínima de otimismo (deixemos o pessimismo para aqueles que, no Brasil, já estão torcendo contra mesmo antes de o jogo começar…), fazendo essa concessão pode-se até dizer que Graziano terá a oportunidade de fazer uma gestão histórica.

A FAO teve até agora oito diretores-gerais. De todos, o que conseguiu deixar o nome marcado sem que seja preciso consultar a enciclopédia foi o britânico John Boyd Orr (amigo de Josué de Castro, de quem vamos falar daqui a pouco). Ele foi o primeiro diretor-geral, e exerceu o cargo no período de 1945 a 1948. Ganhou até o Prêmio Nobel da Paz, em 1949, pelos esforços na luta contra a fome e pela paz mundial.  De lá pra cá os diretores-gerais da instituição viraram nomes que a gente lê no jornal e não se lembra depois.

Feita a contextualização, voltemos a Graziano. Aos argumentos que embasam o otimismo com a futura gestão dele: primeiro, é um nome do Brasil, país que se tornou um dos novos players da geopolítica internacional – característica que, como se sabe, tem a capacidade de encorpar propostas. E que chega acompanhada do prestígio que o ex-presidente Lula conquistou no exterior. Ao noticiar a vitória de Graziano, por exemplo, o Le Monde escreveu que ele era “ex-ministro de segurança alimentar do carismático presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva” e que encarnava “o programa brasileiro de luta contra a fome, considerado como um sucesso retumbante.”

Segundo: o Brasil tornou-se nos últimos anos referência mundial em políticas públicas de combate à fome e redução da pobreza – acumulou uma série de experiência que servem como uma espécie de portfólio sobre medidas para tratar o problema. Quem abriu essa trilha foi um brasileiro, nascido e criado à beira dos mangues recifenses: o médico e geógrafo Josué de Castro (1908-1973), autor de Geografia da Fome (1946) e Geopolítica da Fome (1951), obras matriciais do assunto. Josué tem uma história também ligada à FAO: durante dois mandatos (1952-1956), foi presidente do conselho da Organização. Ele não foi diretor-geral; o primeiro latino-americano a ocupar este cargo será Graziano. O diretor-geral é o que gere diretamente a FAO; o presidente do conselho tem outras atribuições.

Terceiro: aos 61 anos, Graziano tem uma carreira estreitamente ligada às questões da fome, desenvolvimento rural e agricultura, áreas em que atuou como acadêmico e militante sindical e político. Tem doutorado em Ciências Econômicas (Unicamp) e dois pós-doutorados (EUA e Inglaterra). Participou das Caravanas da Cidadania, onde se gerou o Fome Zero. Desde 2006 é o representante da FAO para América Latina e Caribe – o que significa que está familiarizado com a gestão da organização. Em seu discurso como candidato, pronunciado em 13 de abril passado, deu um indicativo de como deve agir, buscando o consenso: “Como conselheiro do presidente Lula durante 25 anos, desde o tempo em que ele era um líder sindical até quando fui contratado pela FAO, aprendi a importância de construir o  consenso para avançar com rapidez”.

Terá muitos desafios nos próximos três anos – o mandato vai de 2012 a 2015. É um momento de crise alimentar, provocada pela alta dos preços. De enfraquecimento da FAO, que teve orçamento reduzido e se enrosca na própria burocracia. De disputas entre países ricos (com subsídios que impedem a entrada de produtos dos países menos desenvolvidos). De um mundo com quase um bilhão de esfomeados – e em que, para citar frase sempre lembrada pela própria instituição, uma criança morre de fome a cada seis segundos.

Poucos se deram ao trabalho de ler, mas o primeiro ponto do programa de Graziano como candidato é a erradicação da fome. “O sucesso da FAO e de seu diretor-geral”, afirmou, “será julgado em última instância pela velocidade com que se reduzir o número de pessoas com fome no mundo”. Aqui o caminho dele se cruza novamente com o de Josué de Castro, para quem só havia um tipo de desenvolvimento: o “desenvolvimento do homem”.

As disputas pela alimentação não são de agora. Josué de Castro passou os dois mandatos como presidente do conselho da FAO tentando criar uma reserva internacional contra a fome. Aproveitaria excedente de alimentos das nações ricas, que serviria de socorro para abastecer os países que – em razão de crises econômicas, guerras ou desastres ambientais – estivessem sofrendo com a escassez de comida. A ideia nunca pôde ser levada à prática, por absoluta falta de interesse das nações ricas. No discurso de despedida, em 1956, Josué se disse “decepcionado” com o resultado obtido: “Não fomos suficientemente ousados, não tivemos a coragem suficiente para encarar, de frente, o problema e buscar as suas soluções”.

Apoios e alertas valiosos José Graziano já tem. O caminho agora está aberto para avançar.

Vandeck Santiago é jornalista e autor de Josué de Castro – O gênio silenciado (2009, Comunigraf, PE). Contatos: trumbo@uol.com.br

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FONTE: http://bit.ly/k2JFEE

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