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Novo site do Slow Food Brasil

O novo design e navegação do novo site do Slow Food Brasil foram feitos para valorizar o rico conteúdo publicado no site desde que ele nasceu há 6 anos atrás. Hoje já são mais de 700 textos, receitas, vídeos, artigos e notícias.

No novo site, algumas novidades merecem destaque:

As área de Vídeos e Educação do Gosto foram totalmente reformulados e estão com vários conteúdos novos.
Rede Jovem Slow Food e as campanhas Slow Fish Brasil e Queijos Artesanais ganharam muito mais destaque, para que as pessoas possam conhecer mais dessas iniciativas e campanhas realizadas pelos grupos de trabalho do Slow Food Brasil.
Foi criada uma nova seção para Publicações, onde estão disponibilizados vários livretos, manuais e cartilhas do Slow Food, tudo com download gratuito.
Dois novos produtos brasileiros na Arca do Gosto já estão no site: Jaracatiá e Arroz Nativo do Pantanal.
Esperamos que o site seja cada vez mais útil para o movimento no Brasil e que ele sempre sirva para consulta, pesquisa e referência sobre o Slow Food, os projetos e campanhas realizados.

A diversidade de abóboras no Brasil e sua relação histórica com a cultura

Rosa Lía Barbieri

Passe o mouse sobre as imagens para leitura das legendas

O Brasil, originalmente, era habitado por diversas nações indígenas. Navegadores portugueses chegaram às terras brasileiras no ano de 1500, quando este território passou a se constituir em uma das colônias de Portugal. Os portugueses trouxeram escravos da África, já no século XVI. No século XIX, o país tornou-se independente de Portugal e, pouco depois, aboliu a escravatura. Ainda nesse século, chegou ao país um grande número de imigrantes, especialmente alemães e italianos. Mais tarde, vieram também imigrantes de outras partes do mundo, com destaque para japoneses, chineses, poloneses e russos. Cada etnia trouxe consigo sua cultura, valores, culinária e, muitas vezes, sementes de variedades de cereais, hortaliças, frutas, forrageiras, condimentos e plantas medicinais. Acompanhando as sementes, vinha também o conhecimento necessário para o plantio, cultivo, colheita, armazenamento e uso dos produtos. A confluência de diferentes etnias resultou na diversidade do povo brasileiro, de sua religiosidade e, também, em uma culinária diferenciada, marcada, em cada região do país, por uma forte correlação com a história de ocupação local e com a origem de seus habitantes.

Variedade crioula de mogango (Cucurbita pepo) cultivada no municipio de Caçapava do Sul (RS)

Desse modo, ainda hoje, são cultivadas no Brasil muitas variedades crioulas, de um grande número de espécies – sejam espécies nativas, como a mandioca (Manihot esculenta), ou espécies não nativas, como é o caso da cebola (Onion cepa), que veio com os portugueses. São denominadas de variedades crioulas aquelas variedades que foram desenvolvidas pelos próprios agricultores, resultantes da seleção de plantas por eles realizada ao longo do tempo, cujas sementes são passadas de geração a geração e também trocadas entre vizinhos e parentes. Um caso que merece destaque é o das variedades crioulas de abóboras, por sua diversidade e pelo manejo realizado pelos agricultores.

Variedade crioula de Cucurbita maxima, cultivada por descendentes de imigrantes italianos no municipio de Farroupilha (RS). Foto Camila Fonseca Schinestsck

As abóboras pertencem ao gêneroCucurbita (família Cucurbitaceae), que compreende várias espécies silvestres e domesticadas nativas das Américas. Cinco espécies de Cucurbita foram domesticadas há milhares de anos e compreendem as hortaliças conhecidas como abóboras, morangas, gilas, mogangos e abóboras ornamentais:Cucurbita maxima, Cucurbita moschata, Cucurbita ficifolia, Cucurbita argyrosperma Cucurbita pepo.

Quando os primeiros navegadores portugueses desembarcaram em terras brasileiras, há cinco séculos, os indígenas cultivavam suas próprias variedades de abóboras. Naquela época, elas eram o terceiro produto agrícola em ordem de importância para os indígenas, sendo suplantadas apenas pela mandioca e pelo milho. As abóboras cultivadas pelos índios brasileiros foram levadas para a Europa pelos portugueses, enquanto que os espanhóis, que colonizaram outros países das Américas, levaram para lá as variedades de abóboras cultivadas pelos astecas, maias e incas. As abóboras fizeram sucesso e circularam rapidamente entre os diferentes países do Velho Mundo, chegando à Alemanha e à Itália ainda no século XVI. Quando os imigrantes alemães e italianos vieram ao Brasil, no século XIX, trouxeram consigo sementes de suas próprias seleções de abóboras, para seguir cultivando no Brasil aquelas que já haviam sido incorporadas à sua cultura havia três séculos.

Gila (Cucurbita ficifolia)

Assim, atualmente, existe no Brasil o seguinte cenário: alguns agricultores ainda mantém suas variedades crioulas de abóboras, realizando seleção recorrente para os tipos de frutos que mais lhe agradam, de acordo com suas preferências pessoais, ditadas por sua cultura. Um pequeno número desses agricultores tem papel de destaque nessa dinâmica de conservação in situ / on farm, atuando como guardiões dessas sementes, que são passadas de geração a geração e são objeto de trocas entre parentes e vizinhos. O maior número de variedades crioulas em cultivo no país é das espécies Cucurbita maxima e Cucurbita moschata. A primeira apresenta grande variabilidade genética para características morfológicas externas do fruto, como tamanho, formato, cor e textura da casca, o que resulta em uma diversidade de nomes atribuídos para cada tipo, como abobrinha, abóbora, abóbora-crioula, abóbora-cogumelo, abóbora-coração-de-boi, abóbora-gaúcha, moranga e moranga-de-bunda, entre outros. Já os frutos de Cucurbita moschata, conhecidos popularmente como abóbora-de-pescoço, moranga ou abóbora-menina, representam uma importante reserva de alimento para animais domésticos (principalmente suínos e bovinos), além de serem bastante utilizados no preparo de doces – em calda e em pasta – e também de pratos salgados (quibebe, sopas e cozidos).

A maior diversidade de Cucurbita em cultivo no país é mantida pelos agricultores da Região Sul, onde podem ser encontradas as cinco espécies domesticadas deCucurbita, como resultado do processo histórico de colonização. Nesse contexto, agricultores descendentes de portugueses mantêm variedades crioulas deCucurbita pepo, cujos frutos de casca bastante dura e polpa fibrosa, denominados mogangos, são apreciados no preparo de “mogango caramelado” e também em pratos salgados. Em número bem menor, alguns descendentes de portugueses no Sul do país também mantêm variedades crioulas de gila (Cucurbita ficifolia), com frutos de casca extremamente dura e com polpa branca e muito fibrosa, utilizados no preparo de um doce típico português, denominado “doce de gila”, cuja textura é semelhante ao doce de fios-de-ovos, mas com coloração branca e sabor característico.

Variedade crioula de poronguinho ornamental (Cucurbita pepo), com frutos nao comestiveis

Os afrodescendentes, particularmente em comunidades negras rurais, têm suas próprias variedades crioulas, com destaque para os mogangos (Cucurbita pepo). Eles também mantêm variedades crioulas de Cucurbita maxima e de Cucurbita moschata. Os descendentes de imigrantes alemães, além de Cucurbita maxima e deCucurbita moschata, mantêm variedades ornamentais de Cucurbita pepo, algumas com frutos comestíveis e outras não adequadas para o consumo, devido ao amargor da polpa. Com cores intensas e bastante variadas, além de formas bastante diversas (periformes, ovais, discóides, redondos, estrelados), os frutos são usados na decoração de residências. De formato periforme, os chamados poronguinhos ornamentais não são comestíveis, apresentam grande variabilidade e podem ser utilizados em decoração, com grande durabilidade pós-colheita. Quando apresentam formato estrelado, recebem os nomes de abóbora-estrela, abóbora-teta-de-égua ou abóbora-dez-mandamentos, sendo utilizadas no preparo de doces, com ou sem adição de coco ralado. Por sua vez, os descendentes de imigrantes italianos no Sul do país dão preferência a variedades crioulas de Cucurbita maxima com frutos achatados de polpa bastante consistente e coloração alaranjada, os quais são usados para o preparo do recheio de tortei, prato típico da culinária italiana; e de Cucurbita moschata, com frutos grandes de pescoço, para fazer doces em cubos e em pasta.

Preparao de tortei, prato típico da culinaria dos descendentes de imigrantes italianos que residem na Serra Gaucha, cujo recheio consiste de uma pasta feita com a polpa de Cucurbita maxima

Essas variedades crioulas de abóboras são parte de manifestações culturais: desde o nome a elas atribuído até seu preparo, como componentes de diferentes pratos tradicionais, ou por meio de outros usos, como ornamental, por exemplo.

Variedade crioula de abóbora (Cucurbita maxima)

Durante muito tempo, a perpetuação dessas variedades coube unicamente ao esforço de agricultores familiares em propagar e cultivar suas sementes, cuja origem está intrinsecamente ligada com a história das famílias. Porém, as variedades crioulas de abóboras cultivadas no Brasil vêm sofrendo perdas significativas nas últimas três décadas, devido à substituição por variedades híbridas e também pelo abandono do cultivo, causado muitas vezes pelo êxodo rural – particularmente o juvenil – e pela expansão urbana. Essas variedades crioulas constituem um importante patrimônio genético e cultural da agricultura familiar – e do Brasil –, que não pode ser perdido, merecendo maior valorização no cenário nacional.

Quindão de gila, onde o coco ralado foi substituido por doce de gila. Foto Gustavo Heiden

Nota da edição: as fotos aqui exibidas foram, em sua maior parte, produzidas pela autora do artigo. Quando a foto for de outro autor (como no caso deste maravilhoso quindão de gila), seu nome aparecerá, juntamente com a legenda, quando o mouse for colocado sobre a foto.

Rosa Lía Barbieri é bióloga, Doutora em Genética e Biologia Molecular, pesquisadora da Embrapa Clima Temperado (Pelotas, Rio Grande do Sul)

FONTE: Slow Food Brasil

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