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A vigília contra a fome

José Graziano da Silva

O significado da palavra transição não pode ser subestimado quando se analisa a convalescença da maior crise vivida pela economia mundial nos últimos 80 anos.

A queda expressiva verificada nas cotações agrícolas, um recuo de 20% no Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Alimentação (FAO), em relação a agosto de 2012, é um pedaço dessa travessia.

Persistente há cinco meses, o recuo favorece os consumidores e não necessariamente penaliza os produtores. Na média, os índices resistem acima das margens de remuneração das últimas décadas.

A fotografia tirada no meio do caminho não expressa necessariamente o rosto do futuro. Ninguém pode prever com exatidão o desfecho de uma travessia feita de baixa cotação das commodities, aperto de liquidez e restrição ao crescimento potencial das nações em desenvolvimento.

A natureza pró-cíclica dos mercados financeiros age, ademais, para reforçar a espiral descendente, assim como em 2007/2008 operou no sentido inverso, quando a demanda adicional do etanol americano sobre a principal safra de milho do mundo teve seu impacto altista exacerbado pelas apostas em índices e contratos futuros.

O efeito contagioso do tsunami especulativo – em fuga dos mercados convencionais – afetou então de forma indiscriminada as cotações de alimentos em todo o planeta. As consequências foram exponencialmente superiores ao calibre da motivação original. E essa é uma característica da ‘financeirização’ das crises no mercado globalizado.

Hoje o quadro é diverso, mas o agravante financeiro persiste, embora com sinal inverso. Enquanto os fluxos das apostas se voltam para os juros de longo prazo nos EUA, o mundo se prepara para colher uma safra de grãos 8% superior a de 2012. No Brasil, por exemplo, a previsão de uma colheita 15,5% maior já provoca um recuo dos preços no atacado.

Praticamente concluída, a safra americana de milho irradia igual efeito ao devolver o que a seca retirou do mercado em 2012, quando o Meio-Oeste teve a pior colheita em 50 anos. Desta vez a produção foi recorde com alta de 27% sobre 2012, chegando perto de 350 milhões de toneladas de milho. O efeito dessa alavanca na oferta mundial é previsível.

A recomposição dos estoques de passagem, que atingiram o menor nível da história em 2012, é uma delas. A perspectiva é de que fechem 2013 no nível mais alto em uma década, 23% superiores aos do ano passado. A convergência de boas notícias traz alívio depois de um ano difícil. Mas não deve alimentar ilusões.

O mercado agrícola permanece volátil e, como recomendaram os líderes do G-20, na sua reunião de São Petersburgo em setembro deste ano, ainda precisa de uma vigilância estreita e permanente.

A prontidão já mostrou sua eficácia. No ano passado, quando a seca do Meio Oeste americano atiçou a espiral especulativa, o Sistema de Monitoramento de Preços Agrícolas entrou em ação.

Criado em 2011 pelo G-20, esse sistema conta com um secretariado multi-agência liderado pela FAO e tem como objetivo dar maior transparência às condições reais dos mercados, dimensionar estoques e oferecer um espaço de coordenação entre os principais compradores e vendedores de cereais para evitar reações intempestivas e unilaterais, que levam ao pânico. Funcionou bem em 2012: em setembro do ano passado as cotações voltariam aos trilhos da estabilidade – e, agora, de queda.

A lição desse episódio é clara: sob o domínio da globalização financeira, uma seca que afete um produto em um único país pode desestabilizar os preços dos alimentos em todo o planeta. A coordenação política da segurança alimentar é a única força capaz de subtrair espaços à incerteza econômica e climática exacerbada pela transição em curso da crise mundial.

Esse foi o espírito predominante no encontro de ministros de agricultura de quase 40 países, realizado esse mês, na sede da FAO, em Roma.

Reforçar a governança mundial, criar estoques para garantir a segurança alimentar, incentivar o plantio, promover um salto na produtividade da agricultura familiar e fortalecer as redes de proteção social estão entre as ferramentas que podem gerar maior estabilidade e novos avanços na luta contra a fome.

A globalização financeira continuará a exercer sua devastadora capacidade de irradiar crises e potencializar os efeitos de uma safra mal sucedida em qualquer ponto do planeta.

Construir o contrapeso a esse carrossel desordenado é o grande desafio das agências internacionais. Por isso, em paralelo à reunião ministerial de outubro, a FAO também abrigou a sessão do Comitê Mundial de Segurança Alimentar. Trata-se de um fórum único para debater a segurança alimentar e reúne diferentes atores: governos, setor privado, sociedade civil e movimentos sociais. É o principal amálgama de representação política do mutirão contra a fome no mundo nesse momento.

A natureza plural de sua composição permite-lhe exercer o papel indutor dos grandes consensos indispensáveis à construção de um contraponto de segurança alimentar à volatilidade do nosso tempo.

A FAO é uma das caixas de ressonância desse esforço, que contempla, de um lado, o monitoramento dos preços dos alimentos e, de outro, o apoio à organização dos que sofrem as piores consequências das irrupções altistas das cotações.

Não se trata de uma fórmula aritmética. Trata-se de um longo e incontornável empenho em erguer linhas de passagem contra a incerteza e a injustiça, até universalizar as políticas públicas indispensáveis à erradicação da fome em nosso tempo.

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)

FONTE: Plano Brasil Sem Miséira

Contra a Fome

José Graziano da Silva

Uma década do Programa de Aquisição de Alimentos no Brasil (PAA) consolidou um instrumento de luta contra a fome no país. E um embaixador brasileiro na cooperação internacional pela segurança alimentar. O êxito do programa, que hoje destina mais de R$ 1 bilhão à compra de produtos gerados por 400 mil famílias de pequenos agricultores, apoia-se num leque de fatores que faziam parte do desenho original do Fome Zero.

O primeiro deles é ter partido de uma ideia de simplicidade contundente: canalizar o poder de compra do Estado para o elo mais fraco da corrente rural, os agricultores familiares e de subsistência. O segundo é a vinculação do PAA, coordenado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, com outras políticas através do guarda-chuva do Fome Zero. Isso garantiu recursos para sua execução e dotou-o de arcabouço institucional complementar dando consistência e legitimidade à iniciativa.

O terceiro fator é ter recuperado e ampliado a rede da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para garantir a operacionalidade das aquisições junto ao produtor. O quarto é ter reconhecido que a capilaridade difusa da pequena produção num país de dimensão continental inviabilizaria a implantação dessa política se ela não viesse assentada em sólida parceria com estados e municípios. Havia da parte deles duplo interesse em participar: apoiar o pequeno produtor local e canalizar a oferta ao atendimento de programas do município como a alimentação escolar, que hoje se abastece de 30% de seus produtos na pequena agricultura local.

Iniciativas como essa, acompanhadas da alavanca do crédito ao pequeno produtor, foram acionadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário para assegurar a correspondente resposta da oferta. O que foi feito nesses 10 anos, portanto, não foi obra do acaso. O resgate do planejamento público numa área essencial como a da segurança alimentar funcionou como o amálgama histórico, que permitiu interligar esse conjunto das ações.

O êxito do PAA dos pontos de vista da segurança alimentar e nutricional, do fortalecimento da agricultura familiar, da melhoria da renda dos agricultores, da valorização da produção local e de sua diversificação ultrapassou as fronteiras do país. Etiópia, Malauí, Moçambique, Níger e Senegal implementam programas inspirados no PAA — rebatizado de Purchase from Africans for Africa — com o apoio do governo do Brasil, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Departamento para Desenvolvimento Internacional (Dfid) do Reino Unido.

Apoiar a implantação de programas como o PAA, que propiciem agregação de institucionalidade e contribuam a abordar o problema da fome de modo mais abrangente e coordenado, foi diretriz enfatizada na plataforma que ancorou a minha candidatura à FAO. Componentes importantes que se agregaram à formatação original do programa brasileiro têm pavimentado o diálogo entre a FAO e países em desenvolvimento.

A associação com a merenda escolar é um deles. Esse vínculo tornou-se uma espécie de ovo de Colombo, disseminado na América Latina e Caribe. Em sociedades onde a pobreza rural é fator frequentemente vinculado à inexistência de mercado à agricultura familiar, e a subnutrição infantil predomina, a implantação do PAA é o pulo do gato. Faz diferença, e a diferença aparece em pouco tempo.

O PAA também contribuiu para alterar o modelo de negócio com o qual o PMA — Programa Mundial de Alimentos, vinculado às Nações Unidas — responde a emergências. A tônica anterior combinava a compra de alimentos de países desenvolvidos para doação às nações mais pobres. Agora, o PMA testa a compra de alimentos localmente, adicionando renda às zonas produtoras mais pobres. Falta ampliar o leque de fornecedores, mas o foco local está consagrado.

Um último aprendizado, do qual depende na verdade a coerência e a eficácia das etapas precedentes, remete ao controle democrático da cidadania sobre o programa através do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e de uma miríade de movimentos sociais organizados, ONGs, representações e ouvidorias. Esse filtro de engajamento e representatividade deu à luta pela segurança alimentar a característica de mutirão ecumênico, capaz de superar preconceitos, organizar a cidadania e mobilizar a sociedade e o Estado em torno daquela que deve ser sua prioridade zero da sociedade — a defesa da vida contra a fome.

José Graziano da Silva é Diretor-Geral da FAO

FONTE: CONSEA

10 coisas que você precisa saber sobre a fome em 2013

Foto: PMA

As Nações Unidas publicaram, nesta quarta-feira, uma lista sobre as 10 coisas que todos devem saber a respeito da fome neste novo ano.

Confira abaixo os tópicos compilados pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA:

1. O mundo tem cerca de 870 milhões de pessoas que não têm o necessário para comer para levar uma vida saúdável. Isto significa que uma em cada oito habitantes do globo vai para a cama, todos os dias, passando fome. (Fonte: FAO, 2012)

2. O número de pessoas vivendo com fome crônica baixou para 130 milhões nas últimas duas décadas. Nos países em desenvolvimento, a prevalência da má nutrição caiu de 23,2% para 14,9% no período de 1990-2010. (Fonte: FAO, 2012)

3. A maioria do progresso contra a fome foi alcançado antes de 2007/2008, quando ocorreu a crise econômica global. Desde então, os avanços na redução do problema foram desacelerados e estagnados. (Fonte: FAO, 2012)

4. A fome é o problema número 1 na lista dos 10 maiores riscos de saúde. Ela mata mais pessoas todos os anos que doenças como Aids, malária e tuberculose combinadas. (Fonte: Unaids, 2010. OMS, 2011)

5. A má nutrição está ligada a um terço da morte de crianças com menos de cinco anos nos países em desenvolvimento. (Fonte: Igme, 2011).

6. Os primeiros mil dias da vida de uma criança, da gravidez aos dois anos de idade, são fundamentais para o combate à má nutrição. Uma dieta apropriada, nesta época da vida, protege os menores de nanismos físico e mental, que podem resultar da má nutrição. (Fonte: Igme, 2011).

7. Custa apenas 25 centavos de dólar americano, por dia, para garantir que uma criança tenha acesso a todas os nutrientes e vitaminas necessários ao crescimento saudável. (Fonte: Igme, 2011)

8. Se mulheres, nas áreas rurais, tiverem o mesmo acesso à terra, à tecnologia, à educação, ao mercado e aos serviços financeiros que os homens têm, o número de pessoas com fome poderia diminuir entre 100 e 150 milhões. (Fonte: FAO, 2011)

9. Até 2050, as mudanças climáticas e os padrões irregulares da temperatura terão colocado mais 24 milhões de pessoas em situação de fome. Quase metade destas crianças estarão vivendo na África Subsaariana. (Fonte: PMA, 2009)

10. A fome é o maior problema solucionável do mundo.

Fonte: Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU

Segurança Alimentar e Cidadania: Walter Belik no TEDxUnicamp 2012

Movimento propõe combate à fome evitando desperdício

Criado pelo Instituto Alana, o movimento Satisfeito propõe que os restaurantes diminuam as porções de comida de alguns pratos do seu cardápio, sem reduzir o preço.

Prato vazio: organização propôs uma parceria aos restaurantes e clientes para acabar com todo esse desperdício de comida e combater a fome infantil no mundo. Fonte: Exame

A maioria de nós, quando pequeno, já ouviu de algum adulto que é feio deixar sobrar comida no prato, porque tem muita criança no mundo passando fome. Mas não faz bem mais sentido colocar menos comida na mesa e, assim, evitar o desperdício, em vez de se obrigar a comer mais do que precisamos para nos sentir saciados? Esta é a reflexão que o movimento Satisfeito*, criado pelo Instituto Alana, faz aos brasileiros.

Alarmada com o dado de que cerca de um terço dos alimentos produzidos para consumo vão parar na lata do lixo, a organização propôs uma parceria aos restaurantes e clientes para acabar com todo esse desperdício de comida e, ao mesmo tempo, combater a fome infantil no mundo.

Funciona assim: os estabelecimentos interessados em participar, elegem alguns pratos de seu cardápio para serem servidos em porções menores, com 2/3 de seu tamanho original, mas pelo mesmo preço. Os clientes que querem aderir à iniciativa, então, optam por esses pratos e o dinheiro que os restaurantes lucram com essa escolha é enviado a organizações que alimentam crianças pelo mundo – como a Seeds of Light e o Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren).

Os pratos do menu que fazem parte da iniciativa têm um sorriso no cardápio, facilitando a identificação dos clientes. Diversos restaurantes localizados na cidade de São Paulo já aceitaram participar do Satisfeito (confira a lista completa dos estabelecimentos) e a tendência é o número crescer ainda mais. O Instituto Alana pretende, inclusive, expandir a iniciativa para outros Estados do Brasil.

Confira, abaixo, o vídeo do movimento Satisfeito para entender melhor como funciona o projeto.

Satisfeito – Apresentação from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

Fonte: Exame

Os jogos da fome

Esther Vivas

A crise alimentar açoita o mundo. Trata-se de uma crise silenciosa, sem grandes anúncios, que não interessa nem ao Banco Central Europeu, nem ao Fundo Monetário Internacional, nem à Comissão Europeia; mas que atinge a 870 milhões de pessoas, que passam fome, segundo indica o relatório “O estado da insegurança alimentar no mundo – 2012”, apresentado no dia 9 de outubro passado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

Acreditamos que a fome está bem longe de nossos confortáveis sofás; que pouco tem que ver com a crise econômica que nos atinge. Porém, a realidade é bem distinta. Cada vez aumenta mais o número de pessoas que passa fome no Norte. Obviamente, não se trata da mesma fome que atinge aos países da África ou outros; porém, consiste na impossibilidade de ingerir as calorias e proteínas mínimas necessárias; e isso tem consequências sobre nossa saúde e nossas vidas.

Há anos, chegam até nós as terríveis cifras da fome nos Estados Unidos: 49 milhões de pessoas, 16% das famílias, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que incluem a mais de 16 milhões de crianças. Números que o escritor e fotógrafo David Bacon põe rosto em seu trabalho ‘Hungry By The Numbers‘ (Famélicos segundo as estatísticas). As caras da fome no país mais rico do mundo.

No Estado Espanhol, a fome converteu-se também em uma realidade tangível. Sem trabalho, sem salário, sem casa e sem comida. Assim estão muitíssimas pessoas golpeadas pela crise. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2009, calculava-se que mais de 1 milhão de indivíduos tinham dificuldades para consumir o mínimo necessário. Hoje, a situação, ainda sem cifras, é muito pior. As entidades sociais estão superlotadas; e nos últimos dois anos, duplicaram-se as demandas de ajuda por falta de alimentos, para comprar remédios etc. E, segundo informa a organização Save the Children, com cifras de 25% de pobreza infantil, cada vez são mais as crianças que comem somente uma vez ao dia, no restaurante escolar e graças a bolsas de estudo, devido a dificuldades econômicas enfrentadas por suas famílias.

Por isso, não é de se estranhar que, inclusive, o prestigiado jornal estadunidense, The New York Times, publicara, em setembro de 2012, uma galeria fotográfica de Samuel Aranda, ganhador do World Press Photo 2011, que, sob o título ‘In Spain, austerity and hunger‘ (Na Espanha, austeridade e fome) retratara as consequências dramáticas da crise para milhares de pessoas: fome, pobreza, despejos, paralisações…; mas, também, muita luta e mobilização. O Estado Espanhol conta com as taxas de pobreza mais elevadas de toda a Europa, ficando atrás somente da Romênia e da Letônia, segundo um relatório da Fundação Foessa. Uma realidade que se impõe e vem a público, apesar de que alguns a querem silenciar.

A crise econômica, por outro lado, está intimamente ligada à crise alimentar. Os mesmos que nos conduziram à crise das hipotecas subprime, que originou o estouro da “grande crise”, em setembro de 2008, são os que, agora, especulam com as matérias primas alimentares (arroz, milho, trigo, soja…), gerando um aumento significativo de seus preços e convertendo-as em inacessíveis para grandes camadas da população, especialmente nos países do Sul. Fundos de investimento, companhias de seguros, bancos… compram e vendem ditos produtos nos mercados de futuros com a única finalidade de especular com os mesmos e fazer negócio. O que existe de mais seguro para investir do que a comida, se todos temos que comer a cada dia…?

Na Alemanha, o Deutsche Bank anunciava lucros fáceis para quem investia em produtos agrícolas no auge. Negócios similares eram propostos por outro dos principais bancos europeus, o BNP Paribas. O Barclays Bank ingressava, em 2010 e 2011, quase 900 milhões de dólares por especular com a comida, segundo dados do World Development Movement. E não temos porque ir muito longe. Catalunya Caixa oferecia a seus clientes grandes benefícios econômicos a custa de investir em matérias primas sob o slogan: “depósito 100% natural”. E o Banco Sabadell contava com um fundo especulativo que operava com alimentos.

Apesar de tudo que falam, a fome não tem tanto a ver com secas, conflitos bélicos etc.; mas com os que controlam e ditam as políticas agrícolas e alimentares e em mãos de quem estão os recursos naturais (água, terra, sementes…). O monopólio do atual sistema agroalimentar por um punhado de multinacionais, com o apoio de governos e instituições internacionais, impõe um modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos a serviço dos interesses do capital. Trata-se de um sistema que gera fome, perda da agrodiversidade, empobrecimento camponês, mudança climática… e onde se antepõe o lucro econômico de uns poucos às necessidades alimentares de uma grande maioria.

‘Os jogos da fome’ era o título de um filme de ficção dirigido por Gary Ross, baseado no Best-seller de Suzanne Collins, onde uns jovens, representando suas comunidades, tinham que enfrentar-se para alcançar o triunfo e ganhar comida, bens e presentes para o resto de suas vidas. Às vezes, a realidade não está muito distante da ficção. Hoje, alguns “jogam” com a fome para ganhar dinheiro.

*Esther Vivas, membro de Centro de Estudios sobre Movimientos Sociales (CEMS) UPF. Tradução: Adital.

A fome: desafio ético e político

Por Leonardo Boff

Por causa da retração econômica provocada pela atual crise financeira, o número de famintos, segundo a FAO, saltou de 860 milhões para um bilhão e duzentos milhões. Talfato perverso impõe um desafio ético e político. Como atender as necessidades vitais destes milhões e milhões?

Historicamente este desafio sempre foi grande, pois a necessidade de satisfazer demandas por alimento nunca pôde ser plenamente atendida, seja por razões de clima, de fertilidade dos solos ou  de desorganização social. À exceção da primeira fase do paleolítico quando havia pouca população e superabundância de meios de vida, sempre houve fome na história. A distribuição dos alimentos foi quase sempre desigual.

O flagelo da fome não constitui, propriamente, um problema técnico. Existem técnicas de produção de extraordinária eficácia. A produção de alimentos é superior ao crescimento da população mundial. Mas eles estão pessimamente distribuídos. 20% da humanidade dispõe para seu desfrute 80% dos meios de vida. 80% da humanidade deve se contentar com apenas 20% deles. Aqui reside a injustiça.

O que ocasiona esta situação perversa é a falta de sensibilidade ética dos seres humanos para com seus coiguais. É como se tivéssemos esquecido totalmente nossas origens ancestrais, aquela da cooperação originária que nos permitiu sermos humanos.

Esse déficit em humanidade resulta de um tipo de sociedade que privilegia o indivíduo sobre a sociedade, valoriza mais a apropriação privada  do que a coparticipação solidária, mais a  competição do que a cooperação, dá mais centralidade aos valores ligados ao masculino (no homem e na mulher) como  a racionalidade, o poder, o uso da força do que os valores ligados ao feminino (também no homem e na mulher) como a sensibilidade aos processos da vida, o cuidado e a disposição à cooperação.

Como se depreende, a ética vigente é egoísta e excludente. Não se coloca a serviço da vida de todos e de seu necessário cuidado. Mas está a serviço dos interesses de indivíduos ou de grupos com exclusão de outros.
Uma desumanidade básica se encontra na raiz do flagelo da fome. Se não vigorar uma ética da solidariedade, do cuidado de uns para com os outros não haverá superação nenhuma.

Importa considerar que  o desastre humano da fome é também de ordem política. A política tem a ver com a organização da sociedade, com  o exercício do poder e com o bem comum.  Já há séculos, no Ocidente, e hoje de forma globalizada, o poder político é refém do poder econômico, articulado na forma capitalista de produção. O ganho não é democratizado em benefício de todos, mas privatizado por aqueles que detém o ter, o poder e o saber; só secundariamente beneficia os demais. Portanto, o poder político não serve ao bem comum. Cria desigualdades que representam real injustiça social e hoje mundial. Em consequência disso,  para milhões e milhões de pessoas, sobram apenas migalhas sem poder atender suasnecessidades vitais. Ou simplesmente morrem em consequência das doenças da fome, em maior número, inocentes crianças.

Se não houver uma inversão de valores, se não se instaurar uma economia submetida à política e uma política orientada pela ética e uma ética inspirada numa solidariedade  básica não haverá possibilidade de solução para a fome e subnutrição mundial. Gritos caninos de milhões de famintos sobem continuamente aos céus sem que respostas eficazes lhes venham de algum lugar e  façam calar este clamor.

Por fim, cabe reconhecer que a fome resulta também do desconhecimento da função das mulheres na agricultura. Segundo a avaliação da FAO são elas que produzem grande parte do que é consumido no mundo: de 80% – 98% na África subsaariana, de 50%-80% na Ásia e 30% na Europa central e  do leste. Não haverá seguridade alimentar sem as mulheres agricultoras, caso não lhes for conferido  mais poder de decisão sobre os destinos da vida na Terra. Elas representam 60% da humanidade. Por sua natureza de mulheres são as mais ligadas à vida e à sua reprodução.

É absolutamente inaceitável que, a pretexto de serem mulheres, se lhes neguem os títulos depropriedade de terras e o acesso aos créditos e a outros bens culturais. Seus direitos reprodutivos não são reconhecidos e se lhes impede o acesso aos conhecimentos técnicos concernentes à melhoria da produção alimentar.

Sem estas medidas continua válida a crítica de Gandhi: ”a fome é um insulto; ela avilta, desumaniza e destrói o corpo e o espírito…senão a própria alma; é a forma de violência mais assassina que existe”.

Veja do autor o livro: Comer e beber juntos e viver em paz, Vozes 2006.

ONU diz que Bolsa Família é referência mundial no combate à fome

As políticas do governo federal de combate à fome e à miséria são destaques no relatório Estado da Insegurança Alimentar em 2012 no Mundo, elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e divulgado nesta semana. O documento afirma que, nos períodos de 1990/92 e 2010/12, o Brasil reduziu de 14,9% para 6,9% o percentual da população brasileira subnutrida.

Segundo o relatório, o números de pessoas que passam fome ou sofrem de desnutrição nos países de língua portuguesa, como Brasil, Angola (África) e Moçambique (África), caíram no período de 1990 a 2012. A FAO também elogia, no documento, os programas sociais de combate à miséria, citando o Bolsa Família como uma experiência positiva para promover a capacitação econômica das comunidades.

Mesmo assim, cerca de 13 milhões de pessoas ainda enfrentam os efeitos da fome no Brasil e aproximadamente 870 milhões sofrem de subnutrição, segundo a organização. A média de subnutridos representa 12,5% da população mundial.

Para a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Maya Takagi, as conclusões do relatório da FAO/ONU refletem os resultados das políticas de combate à fome e à miséria, desenvolvidas pelo governo federal. Ela lembrou as ações de transferência de renda, como o Bolsa Família, de acesso à alimentação, ampliação do salário mínimo e estímulo à agricultura familiar que também promovem o crescimento econômico.

Por outro lado, Maya Takagi adiantou que o Programa Brasil sem Miséria tem por objetivo combater a desnutrição infantil, associada à extrema pobreza, presente nas áreas rurais, no norte do país, em comunidades indígenas e quilombolas.

Entre 1990 a 2012, o índice de famintos no mundo caiu de 18.6% para 12,5%; na América Latina desceu de 13,6% para 7,7% a população. Exceção para a África, onde a subnutrição passou de 175 milhões para 239 milhões de pessoas.

Agricultura e fome

O relatório da FAO observa os pequenos e médios agricultores, a agricultura familiar e das mulheres são eficazes na redução da pobreza extrema e no combate à fome porque geram alimentos e empregos para os pobres. Para combater a fome, a FAO recomenda aumentar a quantidade e a qualidade dos alimentos, quanto à diversidade, nutrientes e segurança alimentar.

Ao lado das políticas de incentivo ao desenvolvimento econômico, o combate à fome e à miséria também exige a adoção de um sistema de proteção social, permitindo aos mais vulneráveis participarem dos benefícios do crescimento. O relatório da FAO sugere melhorar as transferências de dinheiro, vouchers alimentares ou seguro de saúde que também contribuem para reduzir a subnutrição infantil.

Fonte: Portal Planalto

Sistema de produção e distribuição concentrador gera fome, diz especialista

A fome no mundo não é consequência da escassez de alimentos. Teoricamente, o que é produzido hoje seria suficiente para alimentar todos os habitantes do planeta. Sendo assim, por que tantas pessoas passam fome? A resposta vem da Oxfam, uma organização não governamental (ONG) de origem inglesa que atua em 90 países, inclusive o Brasil – onde está presente há cerca de 50 anos -, e que tem com uma de suas bandeiras o combate à fome e a adoção de políticas públicas que propiciem o aumento da produção de alimentos. Há seis meses, a Oxfam lançou a campanha Cresça (Grow, na língua inglesa).

A entidade defende a ideia de que o problema da fome decorre de fatores como a dificuldade no acesso aos alimentos por causa da especulação com os preços e o pouco apoio dado aos pequenos agricultores. Muriel Saragosa, coordenadora de campanhas da Oxfam no Brasil, considera positiva a experiência brasileira de combate à fome e recomenda que seja copiada por outros países. Mas entende que o país poderia avançar ainda mais se o governo reforçasse os programas de apoio à agricultura familiar.

O que levou a Oxfam a lançar a campanha cresça?

Foi o fato de que os dados sobre a produção de alimentos são um pouco assustadores. Hoje, há um aumento do número de pessoas com fome e a gente sabe que nós estamos produzindo alimentos em quantidade suficiente para que todo mundo tenha o que comer todos os dias. O que está levando as pessoas a terem mais fome hoje que há 20 anos são outros fatores.

Quais são estes fatores?

Um deles é a alta volatilidade dos preços, porque nós temos uma especulação muito grande em cima dos alimentos. O segundo fator é que a fome é rural. Há mais gente com fome no meio rural do que nas cidades. Isso significa que essas pessoas vivem em terras com solo esgotado, ou seja, não apto à produção de alimentos, ou porque não têm acesso a terra e água. O aumento da demanda global por terra e água, que ocorre hoje, faz com que estes bens também se tornem commodities. E, também nesse caso, há pessoas especulando em cima de terra, como se fosse uma forma de guardar dinheiro, em vez de permitir que ela seja usada para produzir alimentos ou para matar a fome de quem tem fome.

Outra coisa que eleva a insegurança alimentar no mundo é que o sistema de produção e distribuição de alimentos está concentrado nas mãos de poucas empresas. Quatro empresas controlam a venda de sementes no mundo. Seis companhias controlam 75% dos agroquímicos. Três empresas controlam quase 90% do comércio de cereais. Com se não bastasse isso, há também um aumento da especulação em torno do preço dos alimentos.

Por causa da crise financeira de 20Ò8, as empresas que apostavam na bolsa passaram a apostar na alta do preço futuro dos alimentos. E, como não há transparência nas informações sobre os estoques de alimentos, ou seja, as empresas privadas não informam quanto há de estoque nem onde eles estão, cada vez que aparece uma notícia de seca em alguma parte do mundo, começa-se a especular que o preço dos alimentos vai subir, isso passou a ser uma rotina, principalmente depois de 2008. A concentração do estoque de alimentos nas mãos de poucas empresas dá a elas o direito de fazer o que quiserem com os preços.

A concentração de terras ocorre em larga escala também no Brasil?

No Brasil, isso ocorre menos que na África, mas também ocorre. Hoje, nós temos grandes companhias internacionais comprando terras no Brasil; temos também a China comprando grandes extensões territoriais para alimentar sua população. Outra questão importante, que também contribui para agravar o problema, está relacionada às mudanças climáticas, que estão gerando uma série de pressões e eventos catastróficos, como as secas e as enchentes, que têm grande impacto sobre a produção de alimentos e colocam a população já marginalizada em uma situação ainda mais difícil.

Qual a visão da Oxfam sobre a agricultura familiar?

Ao contrário do que diz a propaganda, quem produz a maior parte dos alimentos que estão nas mesas dos brasileiros é a agricultura familiar. Hoje, 87% da mandioca que o brasileiro come vêm da agricultura familiar, da mesma forma que 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% dos suínos, 50% da carne de frango e aves em geral e 21% do trigo. Os grandes produtores são responsáveis, principalmente, pelas commodities. Eles produzem aquilo que vai para o exterior. Hoje, por exemplo, o Brasil produz 24% da carne que é consumida no mundo. Desse total, 19% vêm de uma única empresa, o grupo JBS. Mas é a agricultura familiar a grande responsável pelos alimentos que vão para a mesa do brasileiro. Por isso, ela tem que ser valorizada.

O apoio que a agricultura familiar recebe hoje do governo é condizente com o seu peso?

Hoje, a agricultura familiar tem, por parte do governo, um apoio maior do que tinha em épocas passadas. Porém, mesmo assim, a distribuição de recursos é muito desigual Um exemplo: o orçamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário, principal base de apoio no governo aos pequenos agricultores, corresponde a 57% do orçamento do Ministério da Agricultura, que está voltado, principalmente, para o agronegócio. Além disso, o Ministério do Desenvolvimento Agrário tem uma deficiência muito grande de pessoal, principalmente nas áreas de pesquisa e extensão rural, setores que, no âmbito do governo federal, estão voltados, prioritariamente, para as commodities e o agronegócio.

No caso da extensão rural, apesar de ter ocorrido um grande esforço por parte do governo para melhorar a qualidade da assistência técnica para a agricultura familiar, esse apoio ainda está muito condicionado a uma assistência por pacotes tecnológicos. Mesmo o financiamento que vem dos bancos é sempre direcionado para um atendimento mais padronizado. Com isso, fica muito difícil para um sistema que aposta na diversidade e no não uso de agrotóxicos conseguir um financiamento agrícola. Isso, indiscutivelmente, é um problema. .

As mudanças climáticas poderão comprometer a produção de alimentos no mundo?

Essa é uma questão muito importante porque os eventos catastróficos ligados às mudanças climáticas pressionam muito mais os pequenos produtores de alimentos do que os grandes, porque os pequenos não têm o que a gente chama de resiliência, que é a capacidade de levantar recursos no banco para se reerguerem. Outra coisa é que o controle dos recursos naturais está escapando das mãos dos pequenos produtores de alimentos devido às dificuldades de acesso à terra. Hoje, está cada vez mais difícil conseguir água para irrigação. Além disso, recursos naturais como florestas ou a pesca estão mais escassos. A terra no Brasil é extremamente concentrada. E isso é um problema para o pequeno produtor.

É possível reverter a crise climática ou o cenário pessimista é irremediável?

Nós estamos caminhando mal. Os países que têm a maior parcela de culpa na produção dos gases do efeito estufa não estão fazendo a sua parte. Não estão cumprindo os acordos internacionais e não estão investindo em fazer algo diferente. Nós consideramos que é importante ter ações de prevenção das mudanças climáticas e de adaptação a esse novo cenário. Mas a realidade é que ninguém está pondo dinheiro na mesa. E nós temos várias propostas. Uma é a instituição de uma taxa sobre transações financeiras, que poderia formar um fundo para financiamento de programas de adaptação aos efeitos da crise climática pela agricultura familiar.

Outra campanha é taxar o combustível dos grandes navios que transportam mercadorias de um país a outro. Seria uma taxa bem pequena que não iria aumentar o preço dos alimentos, mas que incentivaria a produção local dos alimentos, diminuindo o uso dos combustíveis fósseis que contribuem para o efeito estufa. O Brasil deveria fazer isso, pois é uma liderança mundial, é a sexta economia do mundo.

Em relação à produção de alimentos, qual o cenário com o qual vocês trabalham para as próximas décadas?

O que estamos dizendo é que precisamos fazer alguma coisa com urgência. Precisamos, com urgência, que a sociedade tome conhecimento desses problemas e que os movimentos que já têm conhecimento disso sejam fortalecidos e se tornem capazes de conversar com os tomadores de decisão. Precisamos que a agricultura familiar seja fortalecida para garantir, com mais segurança, que as pessoas tenham não só disponibilidade de comida, mas também meios de comprar essa comida. Precisamos investir mais na produtividade, na resiliência e na sustentabilidade dos pequenos produtores e, em particular, nas mulheres, que são hoje a maioria dos pequenos produtores de alimentos e não têm visibilidade como tal.

Outra coisa importante é que a gente precisa parar com esse processo de apropriação da terra e da água por parte das grandes corporações, em detrimento da produção de alimentos e da sustentabilidade ambiental. Temos que parar de produzir carne de vaca para que uma minoria coma em detrimento da produção de feijão e arroz.

Que análise vocês fazem dos programas brasileiros de combate à fome?

No Brasil, houve uma melhora significativa. Inclusive, o fato de o Brasil estar fazendo isso dentro de um sistema democrático e com governança social, em espaços como o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), é um exemplo positivo que nós, como Oxfam, estamos documentando e compartilhando com nossos colegas de outros países, para que possam aproveitar o que há de bom da experiência brasileira e ir mais longe. Há uma ideia de que no Brasil não há mais fome. Mas isso não é verdade. O problema continua a existir. Há no Brasil 16 milhões de miseráveis. E quem está na miséria está com fome, porque não pode produzir ou porque não tem acesso a comida. E a maioria dessas pessoas está no campo. E para o Brasil nós temos duas grandes prioridades. A primeira é aumentar a consciência da população em geral sobre a alimentação, sobre o que comer, se o alimento é saudável, se atrás dele há trabalho escravo. A segunda prioridade é trabalhar com a agricultura familiar.

Fora do Brasil, onde a situação é mais crítica?

Sem dúvida que a África é o continente em pior situação. Dentro da África, a região mais crítica é a do Sahel. O mundo não se preocupa com a África. A cooperação internacional diminuiu muito nos últimos anos. A receita que tem sido levada para Lá é que é só produzir soja, milho e algodão que o problema vai ser resolvido. Esse modelo foi – e continua sendo – Levado para a África nos últimos 30 anos, quando a gente sabe que a solução do problema da fome passa pela agricultura familiar adaptada de maneira que os produtores possam trabalhar segundo a realidade local. Na África, a agricultura familiar que produz alimentos tem sido colocada cada vez mais à margem nos espaços de produção. Você vê investimentos em irrigação que vão para a soja, o milho e não vão para o mileto (tipo de cereal), não vão para as mulheres que produzem o feijão-fradinho, que fazem a comida local. O que nós temos hoje na África é uma concentração de área agrícola de qualidade voltada para a produção de commodities e uma diminuição da área destinada à produção local de alimentos.

Fonte: Correio Braziliense

FAO revê demanda por alimentos até 2050 para baixo

Quinta-feira, 09 de Fevereiro de 2012, 08:49′:53″

O mundo vai precisar de menos alimentos até 2050, contrariando as estimativas vigentes. A explicação está na demanda global, que crescerá a taxas bem menores do que vinha sendo previsto. Foi o que afirmou ontem o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), Jose Graziano da Silva, surpreendendo mais de 200 executivos do agronegócio reunidos em Genebra, Suíça.

Em 2009, a FAO havia estimado que o mundo precisaria aumentar a produção global de alimentos em 70%, tomando como base a média de produção entre 2005 e 2007, para alimentar 9,1 bilhões de pessoas em 2050 – 2 bilhões a mais do que a atual população do planeta. Nada menos que 90% desta expansão deveria vir de maior produtividade, colheitas intensivas e incremento de 10% do uso da terra.

A agência da ONU refez os mesmos cálculos, por meio de novas informações disponíveis, e concluiu que a necessidade de incrementar a produção agrícola até 2050 será por volta de 60%, tanto para uso alimentar como para a produção de biocombustíveis.

Conforme Graziano, esta conclusão reflete pelo menos três fatores. Primeiro, o crescimento populacional será menor e haverá declínio da população em vários países e regiões, incluindo Japão, China, Brasil e Europa.

Em segundo lugar, mais países e grupos populacionais deverão atingir, gradualmente, um nível de consumo de alimentos que, por sua vez, encontrarão pouco espaço para a expansão.

Terceiro: ao mesmo tempo em que a demanda por alimentos pode aumentar em certos países, muitos outros continuarão a ver suas populações aumentarem e permanecerão com baixas rendas ou pobreza significativa ainda por um longo período.

“O aumento da renda per capita, principalmente nos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] é menor do que o previsto por causa da crise. Menos renda significa menos consumo”, afirmou Graziano. “Além disso, houve redução de metas de uso de biocombustíveis na Europa, o que também explica a nova projeção”, disse o brasileiro.

Mas os participantes do seminário sobre “como alimentar o mundo”, realizado em Genebra, pareceram pouco convencidos. Paul Bulcke, presidente da Nestlé, um dos patrocinadores do evento, continuou falando da necessidade de aumentar a produção mundial em até 90% para atender à demanda. O executivo insistiu que o aumento da população mundial, a escassez de água e o desperdício de alimentos ou seu uso na produção de biocombustíveis – em referência ao etanol a base de milho dos EUA – têm impactos sobre a segurança alimentar.

“O pessoal se assustou [com a nova estimativa], mas 60% de aumento na produção significa muito”, observou Graziano, notando que as terras disponíveis para agricultura são poucas e situadas basicamente na América do Sul e nas savanas africanas.

Para o diretor da FAO, os países do Mercosul continuarão a ser o celeiro do mundo e a “grande restrição ao bloco é o comércio internacional e os fertilizantes, que são caros e quase todos importados”, disse. Ele reiterou que o mundo passará por uma década de preços elevados de alimentos e a grande preocupação será a volatilidade, que não favorece o produtor nem o consumidor.

Graziano sinalizou, também, os limites da FAO na luta contra a fome: o órgão dispõe de apenas US$ 1 dólar para cada pessoa mal nutrida no mundo, e elas somam 1 bilhão atualmente. Por isso ele reforçou a defesa pela redução do desperdício de alimentos em toda a cadeia produtiva, do campo ao consumo. No Brasil, essas perdas são estimadas em 40%.

“As pessoas acham que sabem comer, mas não é verdade”, disse. Estima-se que a redução global do desperdício em 25% seria suficiente para alimentar 500 milhoes de pessoas por ano sem a necessidade de ampliar a produção.

Até março, a FAO deverá aprovará, ainda, um código de conduta para reduzir investimentos estrangeiros na aquisição de terras, mas as normas serão voluntárias e os 190 países-membros poderão adotá-las ou não.

FONTE: Suninocultura Industrial

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