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A vigília contra a fome

José Graziano da Silva

O significado da palavra transição não pode ser subestimado quando se analisa a convalescença da maior crise vivida pela economia mundial nos últimos 80 anos.

A queda expressiva verificada nas cotações agrícolas, um recuo de 20% no Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Alimentação (FAO), em relação a agosto de 2012, é um pedaço dessa travessia.

Persistente há cinco meses, o recuo favorece os consumidores e não necessariamente penaliza os produtores. Na média, os índices resistem acima das margens de remuneração das últimas décadas.

A fotografia tirada no meio do caminho não expressa necessariamente o rosto do futuro. Ninguém pode prever com exatidão o desfecho de uma travessia feita de baixa cotação das commodities, aperto de liquidez e restrição ao crescimento potencial das nações em desenvolvimento.

A natureza pró-cíclica dos mercados financeiros age, ademais, para reforçar a espiral descendente, assim como em 2007/2008 operou no sentido inverso, quando a demanda adicional do etanol americano sobre a principal safra de milho do mundo teve seu impacto altista exacerbado pelas apostas em índices e contratos futuros.

O efeito contagioso do tsunami especulativo – em fuga dos mercados convencionais – afetou então de forma indiscriminada as cotações de alimentos em todo o planeta. As consequências foram exponencialmente superiores ao calibre da motivação original. E essa é uma característica da ‘financeirização’ das crises no mercado globalizado.

Hoje o quadro é diverso, mas o agravante financeiro persiste, embora com sinal inverso. Enquanto os fluxos das apostas se voltam para os juros de longo prazo nos EUA, o mundo se prepara para colher uma safra de grãos 8% superior a de 2012. No Brasil, por exemplo, a previsão de uma colheita 15,5% maior já provoca um recuo dos preços no atacado.

Praticamente concluída, a safra americana de milho irradia igual efeito ao devolver o que a seca retirou do mercado em 2012, quando o Meio-Oeste teve a pior colheita em 50 anos. Desta vez a produção foi recorde com alta de 27% sobre 2012, chegando perto de 350 milhões de toneladas de milho. O efeito dessa alavanca na oferta mundial é previsível.

A recomposição dos estoques de passagem, que atingiram o menor nível da história em 2012, é uma delas. A perspectiva é de que fechem 2013 no nível mais alto em uma década, 23% superiores aos do ano passado. A convergência de boas notícias traz alívio depois de um ano difícil. Mas não deve alimentar ilusões.

O mercado agrícola permanece volátil e, como recomendaram os líderes do G-20, na sua reunião de São Petersburgo em setembro deste ano, ainda precisa de uma vigilância estreita e permanente.

A prontidão já mostrou sua eficácia. No ano passado, quando a seca do Meio Oeste americano atiçou a espiral especulativa, o Sistema de Monitoramento de Preços Agrícolas entrou em ação.

Criado em 2011 pelo G-20, esse sistema conta com um secretariado multi-agência liderado pela FAO e tem como objetivo dar maior transparência às condições reais dos mercados, dimensionar estoques e oferecer um espaço de coordenação entre os principais compradores e vendedores de cereais para evitar reações intempestivas e unilaterais, que levam ao pânico. Funcionou bem em 2012: em setembro do ano passado as cotações voltariam aos trilhos da estabilidade – e, agora, de queda.

A lição desse episódio é clara: sob o domínio da globalização financeira, uma seca que afete um produto em um único país pode desestabilizar os preços dos alimentos em todo o planeta. A coordenação política da segurança alimentar é a única força capaz de subtrair espaços à incerteza econômica e climática exacerbada pela transição em curso da crise mundial.

Esse foi o espírito predominante no encontro de ministros de agricultura de quase 40 países, realizado esse mês, na sede da FAO, em Roma.

Reforçar a governança mundial, criar estoques para garantir a segurança alimentar, incentivar o plantio, promover um salto na produtividade da agricultura familiar e fortalecer as redes de proteção social estão entre as ferramentas que podem gerar maior estabilidade e novos avanços na luta contra a fome.

A globalização financeira continuará a exercer sua devastadora capacidade de irradiar crises e potencializar os efeitos de uma safra mal sucedida em qualquer ponto do planeta.

Construir o contrapeso a esse carrossel desordenado é o grande desafio das agências internacionais. Por isso, em paralelo à reunião ministerial de outubro, a FAO também abrigou a sessão do Comitê Mundial de Segurança Alimentar. Trata-se de um fórum único para debater a segurança alimentar e reúne diferentes atores: governos, setor privado, sociedade civil e movimentos sociais. É o principal amálgama de representação política do mutirão contra a fome no mundo nesse momento.

A natureza plural de sua composição permite-lhe exercer o papel indutor dos grandes consensos indispensáveis à construção de um contraponto de segurança alimentar à volatilidade do nosso tempo.

A FAO é uma das caixas de ressonância desse esforço, que contempla, de um lado, o monitoramento dos preços dos alimentos e, de outro, o apoio à organização dos que sofrem as piores consequências das irrupções altistas das cotações.

Não se trata de uma fórmula aritmética. Trata-se de um longo e incontornável empenho em erguer linhas de passagem contra a incerteza e a injustiça, até universalizar as políticas públicas indispensáveis à erradicação da fome em nosso tempo.

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)

FONTE: Plano Brasil Sem Miséira

Dirigente da Cruz Vermelha defende que pequenos produtores cultivem comida

Gláucia Chaves, Especial para o Correio Braziliense

Ao redor do mundo, todas as noites, quase 1 bilhão de pessoas vão para a cama com fome. Ironicamente, grande parte desses indivíduos são pequenos agricultores, responsáveis pela produção de metade dos alimentos consumidos no planeta. Cerca de 180 milhões de crianças de até 5 anos estão desnutridas e com retardo no crescimento e 925 milhões de pessoas sofrem de fome crônica. Ao mesmo tempo, no segundo semestre de 2010, os alimentos ficaram 30% mais caros, 10 milhões de hectares de terra foram inutilizados por conta da seca e 30% das sobras de alimentos foram perdidas. O orçamento do Banco Mundial utilizado para a agricultura caiu de 26%, em 1980, para apenas 10%, em 2000. Esses são apenas alguns números do Relatório Mundial sobre Desastres de 2010, divulgado em setembro deste ano.

No registro feito pela Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho sobre a situação da fome no mundo, os dados espelham a situação desesperadora de populações sem condições de se alimentar e a chamada “obesidade epidêmica” dos ricos. Em uma visita ao Brasil para acompanhar o lançamento da Frente Parlamentar de Apoio à Cruz Vermelha Brasileira (CVB) — iniciativa do líder da bancada do Partido Popular Socialista (PPS), Rubens Bueno, e do presidente nacional da CVB, Walmir Moreira Serra —, o subsecretário geral para a Sociedade Nacional e Desenvolvimento do Conhecimento da Federação Internacional da Cruz Vermelha e Sociedades do Crescente Vermelho (FICV), Mukesh Kapila, falou ao Correio sobre a fome no mundo, iniciativas governamentais para driblar o problema e a responsabilidade de cada um na luta contra a desnutrição.

Como uma reconfiguração do sistema alimentar global pode ser feita?
Com investimentos primários, agricultores irão cultivar alimentos na comunidade local. A maioria dos alimentos já é produzida por pequenos agricultores ao redor do mundo e isso certamente é suficiente para alimentar os continentes mais famintos. Então, por que tanto dinheiro está indo para a indústria agrícola, incluindo aqui no Brasil? O fato é que o preço para produzir nas terras é maior para os pequenos fazendeiros.

Quais as principais dificuldades que países como o Brasil enfrentam? São as mesmas enfrentadas pelo resto do mundo?
O Brasil é um país muito importante agora. Os desafios são os mesmos, na verdade: como criar um sistema justo de distribuição de recursos? Todo cidadão precisa ter acesso aos direitos humanos básicos para sobreviver e para que possa se desenvolver, como comida, água, cuidados de saúde e assim por diante. Logo, essa é a questão principal, esse é o verdadeiro desafio. A vantagem de países como o Brasil, que exportam comida, é que eles enriquecem muito rápido. E você precisa enriquecer para ter recursos para distribuir. Países como o Brasil, com grande extensão de terras e economicamente fortes, têm uma posição de liderança. A pergunta para o governo do Brasil e para os brasileiros é a seguinte: vocês estão preparados? Ou ainda: quando vocês estarão preparados para assumir fortemente essa posição de liderança no mundo? O mundo sem a liderança brasileira é um mundo que se move em velocidade média, quando poderia ir à toda velocidade. A questão do Brasil, então, é nacional — fazer o que é certo pelos cidadãos — e internacional, já que precisa assumir um lugar apropriado em um mundo em que ainda está à parte.

Segundo o World Disaster Report, 27% da população dos Estados Unidos é obesa, enquanto 925 milhões de pessoas sofrem de fome crônica. Como a especulação financeira do mercado de alimentos se relaciona com esse dado? O preço dos alimentos é o principal motivo? Quais os outros?
Isso não é surpreendente, na verdade. Acho que se houvesse investimentos em diferentes formas de agricultura, o custo da comida cairia. Os fabricantes descobriram que a presença do açúcar e do sal em excesso na comida processada faz com que ela possa ser distribuída para locais mais distantes. E ela ainda é mais barata. Logo, as pessoas pobres à procura de algo para comer naturalmente irão em busca dos alimentos mais baratos, que tendem a ser menos saudáveis. Como resultado, elas se tornam obesas e doentes. Elas não consomem a quantidade necessária de vitaminas e outro elementos nutricionais que são necessários a todos. O fato de o país mais rico do mundo ser também o mais gordo é um reflexo de uma sociedade infeliz. Pode ser porque eles estão mais tristes e não têm condições de bancar alimentos mais saudáveis. É um paradoxo mental estranho. É por isso que é preciso uma abordagem social. As pessoas devem ser educadas a confrontar o problema que as está forçando a comer alimentos prontos — que só são consumidos por serem a única opção.

Como tornar a comida saudável mais barata, então?
Esse é um problema político para todos os governos. Tudo em relação à comida é político. Nenhum governo sobrevive se não abordar aspectos políticos relacionados à alimentação. O mundo inteiro tem se tornado mais rico, e os governos precisam fazer escolhas difíceis. Basta tomar como exemplo os alimentos que não são saudáveis, como os com excesso de sal, sódio e açúcar: ele (o governo) pode tentar tarifar esses alimentos ou esses ingredientes de forma diferente, reduzir os impostos sobre os alimentos saudáveis, enfim, há maneiras para se fazer isso. Contudo, muito mais importante que tributação é a parceria que os governantes devem fazer com a sociedade e com grupos como a Cruz Vermelha, que têm como objetivo educar a comunidade, fazer com que as pessoas entendam que cada um é responsável pela própria vida. Isoladamente, o governo não pode fazer muita coisa. Apenas quando os cidadãos comuns tiverem o controle de seu próprio comportamento é que a mudança poderá ser feita. Então, não é justo culpar apenas o governo o tempo todo, como também não é certo esperar que ele resolva todos os problemas. Os cidadãos é que precisam fazer isso.

O primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, da ONU, é reduzir pela metade o percentual de pessoas que sofrem de fome até 2015. Essa é uma meta viável? O que é preciso ser feito para que ela se torne realidade?
Bom, talvez. Acredito que seja possível e isso já foi alcançado em muitos países, mas acho que números como esse, estatísticas sobre quantos por cento estão melhorando ou piorando não nos dizem o suficiente sobre a questão humana que está por trás disso. As estatísticas escondem desigualdades. Na China, por exemplo, o chinês médio tem 50% mais calorias disponíveis que há alguns anos. Ao mesmo tempo, a pobreza tem aumentado. Isso significa que temos que ter muito cuidado ao interpretar esses números e estatísticas. Enquanto grande parte do mundo melhorou, uma parcela significativa da população em vários países tem ido para outra direção. A coisa mais importante para os que fazem as políticas, na minha opinião, é focar-se nos esforços mais valiosos — o que também é o trabalho da Cruz Vermelha. Os governantes precisam andar ao lado dessas organizações.

FONTE: http://bit.ly/ukFWTf

Ibase defende mecanismos de proteção contra aumento de preços dos alimentos

Alana Gandra, Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) comemora domingo (16) o Dia Mundial da Alimentação, com o tema  Preço dos Alimentos: da Crise à Estabilidade. A entidade considera que o preço é uma ameaça para a segurança alimentar dos países em desenvolvimento e quer discutir como esse impacto pode ser reduzido entre as populações mais carentes.

O diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Francisco Menezes, disse à Agência Brasil que o aumento dos preços dos alimentos, que tem ocorrido com certa frequência, mostra que esse não é um problema ocasional. “Há uma característica mais estrutural”.

Para Menezes, a questão resulta de uma “mercantilização” dos alimentos. Embora reconheça que alimentos são também mercadorias compradas e vendidas, “isso não pode  estar acima de todas as coisas. Nós sabemos que por trás dessa volatilidade dos preços está a especulação”. O diretor do Ibase lembrou que especialmente nas bolsas de futuros, os alimentos são tratados como meras mercadorias.

Por isso, defendeu a criação de instrumentos de proteção. Ele explicou que como o alimento é um bem essencial, garantido pela Constituição brasileira, seus  preços não podem ficar ao sabor do jogo dos mercados. No mercado interno, o problema exige, segundo Francisco Menezes, políticas públicas de regulação e impedimento dos excessos especulativos.

“Mas existe também, no plano internacional, a necessidade de criação de mecanismos que impeçam essas flutuações. Porque o  mercado hoje é muito globalizado”. O diretor disse ainda que se o preço de uma commodity agrícola, como o milho, sobe em um país, a repercussão vai ser sentida aqui, sem sombra de dúvida. “Nesse sentido, deve haver um esforço, um mutirão de regulação do mercado de alimentos”.

Menezes avaliou que, nos últimos anos, o Brasil apresentou avanços importantes na área de alimentação, a partir de ações efetivas de combate à fome e de elaboração de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, que atenderam aos mais necessitados. “Foi uma combinação dessas iniciativas, como o Bolsa Família e o Programa de Aquisição de Alimentos, que possibilitou grandes avanços. Os últimos dados disponíveis mostram isso”, acrescentou.

O diretor admitiu, entretanto, que ainda há muito a ser feito em relação ao acesso aos alimentos. “O que se conseguiu não significa que tenhamos chegado ao fim desse trajeto. Há muito a ser trabalhado”, observou. Entre os problemas que precisam ser olhados com mais rigor, ele indicou a qualidade dos produtos. Há a preocupação de contaminação por agrotóxicos, associada ao modelo de produção, que ainda precisa ser transformado, além da mudança dos hábitos alimentares da própria população.

O Ibase tem um posicionamento firme em relação à publicidade dos alimentos. O instituto não concorda, por exemplo, com o argumento de que interferir na publicidade de alimentos constitui agressão à liberdade de expressão. “A gente acha que isso, ao contrário, é uma utilização da possibilidade, sobre públicos muito vulneráveis, como as crianças, de uma manipulação, por todas as consequências desastrosas que pode gerar uma má alimentação”.

Ele acredita que a realização da 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, em Salvador (BA), em novembro próximo, será um momento importante para  que se estabeleçam diretrizes que orientem os próximos passos a serem dados no Brasil nessa área.

Edição: Graça Adjuto

FONTE: Agência Brasil

El Estado de la Inseguridad Alimentaria en el Mundo 2011

Organización de las Naciones Unidas para la Alimentación y la Agricultura – FAO

El Estado de la Inseguridad Alimentaria en el Mundo 2011
¿Cómo afecta la volatilidad de los precios internacionales
y la seguridad alimentaria?

En El estado de la inseguridad alimentaria en el mundo 2011 se hace hincapié en las diferentes repercusiones que tuvo la crisis alimentaria mundial de 2006-08 en los distintos países, y que afectó más a los más pobres.

En el informe se describen los efectos de la volatilidad de precios en la seguridad alimentaria y se presentan opciones en materia de políticas para reducir la volatilidad de manera eficiente (al menor coste posible) y para controlar dicho fenómeno cuando no se pueda evitar. El informe se centra también en los riesgos y oportunidades que plantean los precios elevados de los alimentos. El cambio climático y la mayor frecuencia de las perturbaciones meteorológicas, el aumento de los vínculos entre los mercados energéticos y agrícolas debido a la creciente demanda de biocombustibles y el aumento de la “financiarización” de los productos alimenticios y agrícolas básicos apuntan a que la volatilidad será una realidad perdurable.

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Para mayor información, favor de contactar: sofi@fao.org
Departamento de Desarrollo Económico y Social, Organización de las Naciones Unidas para la Alimentación y la Agricultura, Viale delle Terme di Caracalla, 00153 Roma, Italy.

FONTE: FAO

Segurança alimentar: um osso duro de roer

De acordo com os dados da ONU, existem cerca de mil milhões de pessoas com fome no mundo, sendo África o continente mais afectado pelo problema. Para que seja possível desenvolver a pequena produção agrícola e garantir a segurança alimentar naquele continente, tanto a legislação sobre comércio internacional como a política agrícola da UE terão de ser alteradas, afirmaram diversos participantes, durante a audição pública realizada pela comissão parlamentar do Desenvolvimento.

A Europa concede auxílio alimentar em vão, sempre que subsidia a exportação de bens alimentares e coloca simultaneamente numa situação difícil os produtores locais, referiu a eurodeputada francesa Eva Joly (Verdes/ALE), durante a abertura da audição pública.

De acordo com David Nabarro, da ONU, para que as pessoas tenham acesso a alimentos e os produtores possam sobreviver com a agricultura, é necessário resolver as ineficiências dos sistemas comerciais, tanto a nível mundial como local e regional, uma vez que essas ineficiências são responsáveis pela morte de muitas pessoas.

Mamadou Cissokho, presidente da organização de agricultores da África Ocidental ROPPA, instou os governos africanos a assumirem as suas responsabilidades e a fazerem mais pelos agricultores locais, uma vez que a segurança alimentar não se pode basear no mercado internacional.

“A legislação sobre comércio internacional de produtos agrícolas é um desastre para os pequenos agricultores nos países em desenvolvimento”, afirmou o eurodeputado francês José Bové (Verdes/ALE), que relembrou que “o direito à alimentação é um direito fundamental, o mesmo devendo suceder com a soberania alimentar”.

Quase mil milhões de pessoas com fome no mundo

De acordo com os dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, existem cerca de mil milhões de pessoas com fome no mundo. No último Verão, a fome assolou, como não acontecia há 60 anos, a Somália, a Etiópia, o Quénia, a Eritreia e o Djibuti, deixando dezenas de milhares de pessoas em situação desesperada de fome. Para que esta situação se inverta, confirmaram diversos intervenientes, é necessário coordenar as políticas comerciais, agrícolas e de desenvolvimento.

Combater a especulação

Entre as soluções apresentadas numa resolução parlamentar aprovada recentemente incluem-se novos investimentos agrícolas, a constituição de reservas mundiais de víveres básicos, a remoção de barreiras comerciais e a redução da dívida da maior parte dos países afectados.

Microcrédito

Considerado um bom instrumento, o microcrédito deve ser acompanhado pelo reforço das associações de agricultores locais e a União Europeia poderá apoiar estes desenvolvimentos através da formação e da inovação, defenderam alguns participantes.

Agricultura: um sector fundamental para os países em desenvolvimento

A agricultura representa cerca de 70% dos rendimentos da força de trabalho, especialmente no que se refere às mulheres e desempenha um papel fundamental nas economias dos países em desenvolvimento.

A aquisição descontrolada de terra por parte de investidores estrangeiros e a especulação relativa aos mercados alimentares causam problemas que urge resolver, de que é exemplo a crise alimentar de 2008, apesar de ter sido o ano com a maior produção de trigo de sempre.

FONTE: http://bit.ly/q0AYhQ

Como a Goldman Sachs criou a Crise Alimentar

A demanda e o fornecimento são fatores certamente importantes. Mas há uma outra razão pela qual o alimento se tornou tão caro ao redor do mundo: a ganância de WallStreet.

Frederick Kaufman

Foram necessárias as mentes brilhantes da Goldman Sachs para perceber a simples verdade de que nada é mais valioso do que o nosso alimento diário. E onde há valor, há a possibilidade de fazer dinheiro. Em 1991, funcionários da Goldman, liderados pelo precavido presidente Gary Cohn, vieram com um novo tipo de produto de investimento, um derivativo que acompanhava 24 materiais brutos, de metais preciosos, a energia e café, cacau, gado, milho, suínos e trigo. Eles pesavam o valor de investimento de cada elemento, fundiam e misturavam as partes em somas, e depois reduziam o que seria uma complicada coleção de coisas reais a uma fórmula matemática, e que seria doravante denominada de Goldman Sachs Commodity Index (GSCI).

Durante mais ou menos uma década, o GSCI permaneceu um veículo de investimento relativamente estático, na medida em que os banqueiros estavam muito mais interessados em riscos e operações de garantia de dívida do que em algo que pudesse, literalmente, ser semeado ou colhido. Então, em 1999, a Comissão de Comércio de Commodities Futuras desregulamentou os mercados de futuros. Subitamente, os banqueiros viram-se livres para assumir posições tão grandes em grãos quanto quisessem, uma oportunidade que, desde a Grande Depressão, só esteve à disposição para quem realmente tivesse alguma relação com a cadeia produtiva de  alimentos.

A mudança surgia nas grandes bolsas de grãos de Chicago, Minneapolis e Kansas City – que, por 150 anos, ajudou a moderar as altas e as baixas dos preços globais de alimentos. A agricultura pode parecer bucólica, mas é uma indústria inerentemente volátil, sujeita às vicissitudes do clima, da doença e dos desastres naturais. O sistema de comércio de grãos futuros foi implantado pela primeira vez depois da Guerra Civil pelos fundadores da Archer Daniels Midland, o General Mills e Pilsbury, que ajudaram a estabelecer a América como a potência financeira que rivalizaria, e eventualmente ultrapassaria, a Europa. Além disso, os mercados de grãos também isolavam os fazendeiros e os moeiros americanos dos riscos inerentes à sua profissão. A idéia básica era o “contrato a prazo” (forward contract), um entendimento entre vendedor e comprador sobre o preço razoável para o trigo – mesmo antes da colheita. Não apenas o grão “futuro” ajudava a manter estável o preço do pão na padaria – ou, mais tarde, no supermercado – como também os fazendeiros eram resguardados pelo mercado contra colheitas ruins, tendo acesso a investimentos para as suas fazendas e negócios. O resultado: ao longo do século XX, o preço real do trigo diminuiu (a despeito de uma ou duas exceções, particularmente durante a espiral inflacionária dos anos 70), impulsionando o desenvolvimento do agronegócio americano. Depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA passaram a produzir, frequentemente, safras record, o que se transformou num elemento essencial das suas estratégias políticas, econômicas e humanitárias durante o período da Guerra Fria – para não mencionar o fato de que o grão americano alimentou milhões de famintos ao redor do planeta.

Os mercados futuros incluíam, tradicionalmente, dois tipos de personagem. De um lado estavam os fazendeiros, os moeiros e os estocadores, personagens que possuem uma participação real no grão. Este grupo inclui não apenas agricultores de milho no Iowa ou fazendeiros de trigo  do Nebraska, mas também grandes multinacionais como a Pizza Hut, Kraft, Nestlé, Sara Lee, Tyson Foods e McDonald’s – cujas ações na Bolsa de Valores de Nova Yorque sobem e descem de acordo com a sua habilidade em levar comida às janelas dos carros, às portas de casa ou às prateleiras dos supermercados, a preços competitivos. Estes participantes do mercado são chamados hedgers “bona fide”, porque dependem, efetivamente, da compra e venda de cereais.

Do outro lado está o especulador. O especulador não produz nem consome milho ou soja ou trigo, e nem teria um lugar para estocar as 20 toneladas de cereal que ele possa vir a comprar em determinado momento, se é que o cereal seria realmente entregue. Os especuladores fazem dinheiro através do tradicional comportamento do mercado, a arbitragem de comprar barato e vender caro. E os outros personagens, os que realmente estão envolvidos com a mercadoria real, têm como regra geral dar as boas-vindas aos especuladores tradicionais, pelo fluxo sem fim de ordens de compra e venda que dão ao mercado liquidez e provêem aos hedgers bona fide uma forma de gerenciar riscos, permitindo-lhes vender e comprar apenas quando lhes interessa.

Mas o índice da Goldman perverteu a simetria deste sistema. A estrutura do GSCI não ligou a mínima para os padrões de compra-venda/venda-compra com séculos de tradição. Este produto derivativo ultramoderno era apenas “a coberto” (long-onlyo detentor da posição lucra somente quando o preço da commodity aumenta), o que significa dizer que ele era construído para comprar commodities, e apenas comprá-las. No fundo desta estratégia “a coberto” está a intenção de transformar um investimento em commodities (antes, na alçada de especialistas) em algo que parecia muito com um investimento em ações – o tipo de classe de ativo em que qualquer um pode investir dinheiro e deixá-lo aumentar por décadas (no sentido da General Electric ou Apple). Uma vez que o mercado de commodity foi transformado para parecer mais com o mercado de ações, os banqueiros passaram a contar com novos influxos de dinheiro vivo. Mas a estratégia “a coberto” possuía uma falha, pelo menos para nós que comemos. O GSCI não incluía um mecanismo de venda ou “venda a descoberto” de uma commodity.

Este desequilíbrio minou a estrutura inata dos mercados de commodities, exigindo que os banqueiros continuassem sempre a comprar – não importando a que preço. A cada vez que a data fim de um contrato futuro indexado “a coberto” de commodity se aproximava, os banqueiros precisavam “rolar” as ordens de compra multi-bilionárias acumuladas para os novos contratos futuros, dois ou três meses à frente. E uma vez que o impacto deflacionário da venda a descoberto de uma posição não fazia, simplesmente, parte do GSCI, os negociantes profissionais de grãos podiam se dar bem ao antecipar as flutuações de mercado que estas “rolagens” inevitavelmente causariam. “Vivo de dinheiro fácil,” disse à Businessweek o negociante de commodities Emil van Essen. Os negociantes de commodities empregados pelos bancos que criaram os fundos indexados de commodities pela primeira vez pegaram a maré do lucro.

Os banqueiros reconheceram ser um bom sistema quando o viram, e dezenas de hedgers especulativos seguiram a novidade e juntaram-se ao jogo dos índices de commodities, incluindo o Barclays, o Deutsche Bank, o Pimco, o JP Morgan Chase, a AIG, o Bear Stearns, e o Lehman Brothers, para ficar com apenas alguns dos propagadores dos fundos indexados de commodites. Estava montado o cenario da inflação alimentar, que pegaria desprevenidas algumas das maiores corporações da moagem, do processamento e do varejo nos Estados Unidos, e espalharia ondas de choque por todo o mundo.

O dinheiro conta a estória. Desde a explosão da bolha tech em 2000, a quantidade de dólares investidos em fundos de commodites aumentou em 50 vezes. Para colocar o fenômeno em termos concretos: em 2003, o mercado de futuros de commodities totalizava modorrentos 13 bilhões de dólares. Mas quando a crise financeira global pôs os investidores para fugir, assustados, no começo de 2008, e à medida que os dólares, libras e euros não inspiravam mais confiança, as commodities – inclusive alimentos – pareciam o último e melhor refúgio para os gordos fundos hedge, fundos de pensão e fundos soberanos. “Havia gente que não tinha a mínima idéia do que eram commodites e que, de repente, se pôs a comprá-las,” disse um analista do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Nos primeiros 55 dias de 2008, os especuladores fizeram um derrame de 55 bilhões de dólares nos mercados de commodities, e em Julho, já havia 318 bilhões de dólares a agitar os mercados. A inflação alimentar tem ficado estável desde então.

O dinheiro fluía, e os banqueiros estavam preparados para o novo e fulgurante casino dos derivativos alimentares. Encabeçados pelos preços do petróleo e gás (as commodites dominantes dos fundos indexados) os novos produtos de investimento incendiaram os mercados de todas as outras commodities indexadas, causando um problema familiar àqueles versados em história das tulipas, dot-coms e mercados imobiliários baratos: uma bolha alimentar. O trigo da classe hard red spring, que normalmente era comercializado com preços entre 4 a 6 dólares o bushel, quebrou todos os records anteriores, à medida que os contratos futuros entravam na adolescência, e continuou subindo até atingir a marca de 25 dólares o bushel. E assim, de 2005 a 2008, os preços mundiais de comida tiveram um aumento de 80% – e continuam subindo. “Não há precedentes na quantidade de capital de investimento colocada nos mercados de commodites,” disse Kendell Keith, presidente da Associação Nacional de Grãos e Comida. “Não há dúvida que tem havido especulação.” Olivier De Schutter, o relator especial das Nações Unidas para o direito ao alimento, concluiu, numa nota à imprensa, que em 2008 “uma  parte significativa dos picos de preços se devia à emergência de uma bolha especulativa.”

O que acontecia nos mercados de grãos não era resultado de “especulação” no sentido tradicional de comprar barato para vender caro. Hoje, juntamente com o índice cumulativo, o indice GSCI da Standard & Poors provê 219 diferentes índices, de tal forma que os investidores possam clicar no sistema Bloomberg e apostar em qualquer coisa, do paládio ao óleo de soja, de biocombustíveis a rações para gado. Mas o boom de novas oportunidades especulativas nos mercados globais de grãos, óleo comestível    e carne criaram um círculo vicioso. Quanto mais sobe o preço das commodities de alimentos, mais dinheiro é injetado no setor, e mais os preços sobem. De fato, de 2003 a 2008, o volume da especulação de fundos indexados aumentou em 1.900 por cento. “O que nós estamos vivendo é um choque de demanda proveniente de uma nova categoria de participantes nos mercados de futuros de commodities,” testemunhou o gerente de fundos hedge Michael Masters no Congresso americano durante a crise alimentar de 2008.

O resultado do empreendimento de Wall Street em grãos, comida e gado foi o choque no sistema global de produção e fornecimento de alimentos. O fornecimento mundial de alimento, agora, não tem apenas que lutar com ofertas reduzidas e aumento de demandas, mas também com a tendência de alta artificial dos preços de grãos futuros inventada pelos bancos de investimento. O resultado: o preço de um trigo  imaginário sobrepõe-se ao do trigo real, enquanto os especuladores (tradicionalmente, um quinto do mercado) agora ultrapassam os hedgers bona-fide na proporção de quatro para um.

Hoje, são os banqueiros e negociantes que se situam no topo da cadeia alimentar – os carnivoros do sistema, devorando todos e tudo abaixo deles. Perto da base, labuta o agricultor. Para ele, a alta no preço dos grãos deve ter representado um lucro inesperado, mas a especulação também gerou altas de preços em tudo o que o agricultor precisa comprar para fazer crescer a sua plantação – desde sementes a fertilizantes e diesel. E na base fica o consumidor. O americano médio, que gasta aproximadamente 8 a 12 por cento do seu rendimento em comida, não sentiu de imediato o impacto da alta de preços. Mas para as 2 bilhões de pessoas ao redor do mundo que gastam mais de 50 por cento do seu rendimento com comida, os efeitos foram devastadores: 250 milhões de pessoas ingressaram nas fileiras dos famintos em 2008, elevando o total mundial de “alimentarmente inseguros” ao pico de 1 bilhão – um número nunca dantes visto.

Qual é a solução? Na última visita que fiz à Feira de Grãos de Minneapolis, perguntei a um grupo de corretores de trigo o que aconteceria se o governo dos EUA simplesmente criminalizasse o comércio exclusivo com commodites alimentares por bancos de investimento. A reação deles: risadas. Com apenas uma chamada telefônica para um hedger bona-fide, como a Cargill ou a Archer Daniels Midland, e uma troca secreta de ativos, a carteira de mercados futuros de um banco torna-se idêntica à de um comprador de trigo. E se o governo criminalizasse todos os produtos exclusivamente derivativos, perguntei? Mais uma vez, risadas. O problema seria novamente resolvido com apenas uma chamada, desta vez, para um escritório comercial em Londres ou Hong Kong; os novos mercados derivativos de alimentos adquiriram proporções supranacionais, além do alcance das leis soberanas.

A volatilidade nos mercados alimentares também golpeou o que poderia ter sido uma grande oportunidade para a cooperação global. Quanto mais alto o custo do milho, da soja, do arroz e do trigo, mais as nações produtoras de grãos deveriam cooperar de forma a garantir que nações importadoras em pânico (e geralmente pobres) não aumentem ainda mais os dramáticos contágios de inflação alimentar e levantes políticos. Ao invés disso, países nervosos responderam com políticas do tipo salve-se quem puder, indo desde proibições à exportação ao acúmulo de grãos, passando por acaparamentos de terras neo-mercantilistas em África. E as tentativas de conter a especulação de grãos feitas por ativistas ou agências internacionais caíram no vazio. Enquanto isso, os fundos indexados continuam a prosperar, os banqueiros a embolsar os lucros, e os pobres do mundo cambaleiam à beira da inanição.

Traduzido por Gustavo Lapido Loureiro

FONTE: Foreign Policy, via Matutações

Os porquês da fome

A crise alimentar na África e, em particular, a fome na Somália são resultado de uma globalização ao serviço de interesses privados. Comida há, o problema não é de produção mas de acesso. Artigo de 31 Julho, 2011 – 01:17 – Por Esther Vivas: Crise da fome no Corno de África, Somália, 12 de Julho de 2011

Vivemos num mundo de abundância. Hoje produz-se comida para 12 mil milhões de pessoas, segundo dados de la Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação(FAO), quando no planeta habitam 7 mil milhões. Comida, existe. Então, porque uma em cada sete pessoas no mundo passa fome?

A emergência alimentar que afecta mais de 10 milhões de pessoas no Corno de África voltou a colocar na actualidade a fatalidade de uma catástrofe que não tem nada de natural. Secas, inundações, conflitos bélicos… contribuem para agudizar uma situação de extrema vulnerabilidade alimentar, mas não são os únicos factores que a explicam.

A situação de fome no Corno de África não é novidade. A Somália vive uma situação de insegurança alimentar há 20 anos. E, periodicamente, os meios de comunicação removem os nossos confortáveis sofás e recordam-nos o impacto dramático da fome no mundo. Em 1984, quase um milhão de pessoas mortas na Etiópia; em 1992, 300 mil somalis faleceram por causa da fome; em 2005, quase cinco milhões de pessoas à beira da morte no Malaui, só para citar alguns casos.

A fome não é uma fatalidade inevitável que afecta determinados países. As causas da fome são políticas. Quem controla os recursos naturais (terra, água, sementes) que permitem a produção de comida? A quem beneficiam as políticas agrícolas e alimentares? Hoje, os alimentos converteram-se numa mercadoria e a sua função principal, alimentar-nos, ficou em segundo plano.

Aponta-se a seca, com a consequente perda de colheitas e gado, como um dos principais desencadeadores da fome no Corno de África, mas como se explica que países como Estados Unidos ou Austrália, que sofrem periodicamente secas severas, não sofram fomes extremas? Evidentemente, os fenómenos meteorológicos podem agravar os problemas alimentares, mas não bastam para explicar as causas da fome. No que diz respeito a produção de alimentos, o controle dos recursos naturais é chave para entender quem e para quê se produz.

Em muitos países do Corno de África, o acesso à terra é um bem escasso. A compra massiva de solo fértil por parte de investidores estrangeiros (agro-indústria, Governos, fundos especulativos…) têm provocado a expulsão de milhares de camponeses das suas terras, diminuindo a capacidade destes países para se auto-abastecerem. Assim, enquanto o Programa Mundial de Alimentos tenta dar de comer a milhões de refugiados no Sudão, dá-se o paradoxo de que governos estrangeiros (Kuwait, Emiratos Árabes Unidos, Coreia…) compram-lhes terras para produzir e exportar alimentos para as suas populações.

Assim mesmo, há que recordar que a Somália, apesar das secas recorrentes, foi um país auto-suficiente na produção de alimentos até ao final dos anos setenta. A sua soberania alimentar foi arrebatada em décadas posteriores. A partir dos anos oitenta, as políticas impostas pelo Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial para que o país pagasse a sua dívida com o Clube de Paris, forçaram a aplicação de um conjunto de medidas de ajustamento. No que se refere à agricultura, estas implicaram uma política de liberalização comercial e abertura dos seus mercados, permitindo a entrada massiva de produtos subvencionados, como o arroz e o trigo, de multinacionais agro-industriais norte-americanas e europeias, que começaram a vender os seus produtos abaixo do seu preço de custo e fazendo a competição desleal com os produtores autóctones. As desvalorizações periódicas da moeda somali geraram também a alta do preço dos investimentos e o fomento de uma política de monoculturas para a exportação forçou, paulatinamente, o abandono do campo. Histórias parecidas deram-se não só nos países da África, mas também na América Latina e Ásia.

A subida do preço de cereais básicos é outro dos elementos assinalados como detonador da fome no Corno de África. na Somália, o preço do milho e do sorgo vermelho aumentou 106% e 180% respectivamente em apenas um ano. Na Etiópia, o custo do trigo subiu 85% em relação ao ano anterior. E no Quénia, o milho alcançou um valor 55% superior ao de 2010. Uma alta que converteu estes alimentos em inacessíveis. Mas, quais são as razões da escalada dos preços? Vários indícios apontam a especulação financeira com as matérias primas alimentares como uma das causas principais.

O preço dos alimentos determina-se nas Bolsas de valores, a mais importante das quais, a nível mundial, é a de Chicago, enquanto que na Europa os alimentos comercializam-se nas Bolsas de futuros de Londres, Paris, Amsterdam e Frankfurt. Mas, hoje em dia, a maior parte da compra e venda destas mercadorias não corresponde a trocas comerciais reais. Calcula-se que, nas palavras de Mike Masters, do hedge fund Masters Capital Management, 75% do investimento financeiro no sector agrícola é de caráter especulativo. Compram-se e vendem-se matérias-primas com o objectivo de especular e fazer negócio, repercutindo finalmente num aumento do preço da comida para o consumidor final. Os mesmos bancos, fundos de alto risco, companhias de seguros, que causaram a crise das hipotecas subprime, são quem hoje especula com a comida, aproveitando-se dos mercados globais profundamente desregulamentados e altamente rentáveis.

A crise alimentar à escala global e a fome no Corno de África em particular são resultado da globalização alimentar ao serviço dos interesses privados. A cadeia de produção, distribuição e consumo de alimentos está nas mãos de umas poucas multinacionais que antepõem os seus interesses particulares às necessidades colectivas e que ao largo das últimas décadas têm corroído, com o apoio das instituições financeiras internacionais, a capacidade dos Estados do sul para decidir sobre as suas políticas agrícolas e alimentares.

Voltando ao princípio, Porque existe fome num mundo de abundância? A produção de alimentos multiplicou-se por três desde os anos sessenta, enquanto que a população mundial tão só duplicou desde então. Não estamos a enfrentar um problema de produção de comida, mas sim um problema de acesso. Como assinalou o relator da ONU para o direito a alimentação, Olivier de Schutter, numa entrevista ao “El Pais”: “A fome é um problema político. E uma questão de justiça social e políticas de redistribuição”.

Se queremos acabar com a fome no mundo é urgente apostar noutras políticas agrícolas e alimentares que coloquem no seu centro as pessoas, as suas necessidades, aqueles que trabalham a terra e o eco-sistema. Apostar pelo que o movimento internacional da Vía Campesina chama a “soberania alimentar”, e recuperar a capacidade de decidir sobre aquilo que comemos. Tomando emprestado um dos lemas mais conhecidos do Movimento 15-M, é necessário uma “democracia real, já” na agricultura e na alimentação.

Artigo publicado no jornal El Paisa 30 de Julho de 2011

Tradução para português de Paulo Marques para o blogue economiasocialistads.blogspot.com

Artigo relacionado: ”As crianças mais frágeis foram deixadas pelo caminho

Esther Vivas – Activista política e social, membro do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais na Universidade Pompeu Fabra em Barcelona e no Instituto de Governo e Políticas Públicas da Universidade Autónoma de Barcelona.

FONTE: http://bit.ly/mS55Hv

Graziano: Estoques e planejamento contra a fome

José Graziano, novo Diretor-Geral da FAO, fala sobre a política de combate à fome no mundo.

“Temos que voltar a ter estoques. Numa situação de preços já voláteis, havendo crise, seca, guerra e tendo que se comprar grandes quantidades de alimentos, o preço vai ainda mais para cima”. A afirmação do diretor eleito da FAO, José Graziano da Silva, feita na entrevista coletiva realizada em Roma, na 2º feira, é um primeiro sinal de mudança substantiva na estratégia do organismo, que o brasileiro passa a dirigir a partir de janeiro de 2012.

Nas últimas décadas, a supremacia neoliberal colonizou boa parte da agenda das agencias e organismos internacionais. A terceirização das políticas de desenvolvimento aos ditos ‘livres mercados’ contaminou a esfera da segurança alimentar. Nações, sobretudo as mais pobres, e organismos multilaterais foram incentivadas a renunciar aos cuidados com a soberania alimentar.

A ordem era transferir aos livres mercados –mais eficientes e ágeis, dizia-se– a incumbência pelo suprimento da sociedade. Se o mercado mundial é capaz de prover a demanda de forma ágil e a preços mais competitivos, por que então carregar estoques estratégicos de custos onerosos e, sobretudo, qual o sentido de incentivar a produção agrícola local em busca de uma autosuficiência alimentar difícil e custosa aos cofres públicos? A crise financeira desencadeada a partir do 2º semestre de 2007, e a fulminante especulação com aos preços das commodities agrícolas a a partir de então, respondeu a essas dúvidas cobrando um custo alto em colapso alimentar e fome em muitos países.

No ápice da escassez e da fome as nações e organismos como a FAO estavam desarmados para suprir a demanda. Onde estavam os estoques? Onde continuam a repousar: em celeiros privados das grandes corporações que dominam o comércio e a produção mundial de alimentos e que fazem questão de manter em sigilo o volume dessas reservas. Para não prejudicar suas apostas nos mercados especulativos.

A mudança de orientação sinalizada agora por Graziano desautoriza o conservadorismo midiático que, desgostoso com a vitória brasileira na FAO, tratou em seguida de minimizar a sua importância. Nas perorações sobre a suposta irrelevância da FAO esqueceram de de considerar que a história mudou e a FAO terá que mudar também. A eleição de Graziano, na realidade – apoiada pelos países pobres e em desenvolvimento que mais sofreram com a crise e o êngodo neoliberal – já foi um sintoma dessa mudança.

FONTE: Carta Maior, em http://bit.ly/rqqY4i

As raízes da crise

Longe de representar apenas os efeitos da oferta e da demanda, a alta dos preços das commodities agrícolas mostra que a especulação e a estrutura do comércio mundial precisam ser repensadas.

Por Glauco Faria

Em fevereiro deste ano, os preços mundiais dos alimentos atingiram o maior nível de uma série histórica, iniciada em 1990 e apurada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Aquele foi o oitavo mês consecutivo de alta e o índice superou o de junho de 2008, quando o planeta vivia uma crise alimentar com impressionantes elevações de preços: em três meses, o arroz, por exemplo, chegou a subir 50% e em um período menor que dois anos, o aumento chegou a 180%. Os grãos de primeira necessidade, entre março de 2007 e abril de 2008, tiveram seus preços elevados em 88%.

Nem mesmo a interrupção de uma sequência de oito elevações mensais, com o recuo de preços em março e o índice praticamente estável de abril, fez o cenário se tornar mais favorável. Hoje, estima-se que 925 milhões de pessoas em todo o mundo estão em situação de fome crônica. Como a organização calcula que 40 milhões de pessoas teriam passado a essa condição no período crítico de 2007-2008, os resultados dessa nova elevação de preços podem fazer com que um outro grande contingente de pessoas passe à subnutrição. Mas, afinal, o que está por trás da recente alta?

São diversos os fatores que podem explicá-la. Dois que são bastante difundidos atribuem a elevação a quebras de safras e ao aumento do consumo de alimentos no planeta. O escritor Vincent Boix, autor do livro O parque das redes e responsável pela área de Ecologia Social do site http://www.belianis.es, em um artigo da série “Crise agroalimentícia”, usa alguns dados que desmitificam essa explicação. A FAO prevê, para o ciclo 2010-2011, que o balanço mundial entre a produção e o consumo de cereais apresente um déficit de 43,1 milhões de toneladas. No entanto, as reservas, que estariam próximas de 483 milhões, correspondem a quase 11 vezes essa diferença. No biênio 2003-2004, essa relação era de seis vezes, mesmo assim, os preços não chegavam à metade do que se apresentam agora.

“Essa crise é sistêmica, não conjuntural, e não é mera expressão de um desajuste de oferta e demanda. Há pressões de demanda, sem dúvida, tem havido também problemas de disponibilidade de alimentos em razão de insucesso de safras, mas a questão não se esgota nisso”, analisa Renato Maluf, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). “Há um componente especulativo muito forte, sobretudo pela extrema mercantilização do comércio de commodities no mundo a partir de instrumentos como o mercado futuro, que extrapolaram a sua função e se tornaram um elo entre as commodities e a especulação financeira em geral”, explica. “Há novos atores incidindo nesse mercado, que não são os tradicionais.”

Segundo Maluf, os objetivos da criação do mercado futuro eram justamente garantir liquidez e promover uma proteção contra a flutuação de preços, já que os preços dos produtos agrícolas estão sujeitos a sazonalidades e condições muito específicas. No entanto, hoje esse sistema funciona de forma bem distinta. Não é à toa que o estouro da crise dos subprimes e a alta de preços aconteceram na mesma época. “À medida que outras bolhas foram ‘secando’ ou rebentando (novas tecnologias, mercado imobiliário, subprime), os especuladores (fundos de investimento, hedge funds, fundos de pensões, grandes bancos) se concentraram nas commodities, incluindo os produtos alimentares. Aos olhos dos especuladores, trata-se de uma bolha difícil de “secar”, já que, ao contrário do que sucede com outras mercadorias mais ou menos dispensáveis, as pessoas terão sempre que comer”, pondera o biólogo português e eurodeputado João Ferreira, em artigo publicado em Odiario.info. “Muitos dos que ganham milhões especulando com os produtos alimentares não tocam sequer num único grão de milho ou bago de arroz. A FAO estima que apenas 2% de todos os contratos de futuros resultem na entrega da mercadoria física subjacente”, aponta.

Conforme Vincent Boix, há fundamentalmente dois tipos de agentes nessa cadeia especulativa. “Os fundos de investimento, de pensões, de cobertura etc., que, segundo o Observatório da Dívida na Globalização, ‘…compram e vendem contratos de futuros esperando tirar benefícios em qualquer uma das transações, independentemente de estes contratos se materializarem.’ Depois estão os intermediários (destacando as transnacionais agroexportadoras como Cargill e Monsanto), que manejam grandes quantidades de produtos como o cacau, cereais etc., o que lhes confere influência na oferta de alimentos, não hesitando em armazenar grandes quantidades para desabastecer o mercado e forçar uma subida de preços. Esses intermediários também especulam com contratos de futuros.” Na mesma linha, Renato Maluf também observa que o enorme poder das corporações, em todas as etapas da cadeia que leva os alimentos à mesa das pessoas, lhes dá um grande poder na definição de preços, já que permite que se apropriem do controle de parte do processo especulativo.

Desigualdade no campo

Uma outra questão que merece reflexão diante do cenário de crise alimentar é a do modelo agrícola adotado por cada país. Boix lembra uma declaração de Olivier De Schutter, relator da ONU para o Direito à Alimentação. “Os países africanos se beneficiaram de colheitas relativamente boas em 2010 e não enfrentam risco imediato […] Os países que importam a maior parte da comida que necessitam são mais vulneráveis. Os menos desenvolvidos compram 20% de seus alimentos, e sua conta se multiplicou por cinco ou seis desde os anos 1990. Esta dependência dos mercados internacionais é muito perigosa.”

O depoimento de De Schutter mostra algo que parece bastante óbvio: para assegurar a soberania alimentar de suas populações, os países deveriam produzir a maior parte daquilo que consomem. Mas não é isso que acontece em muitos lugares. “Vale destacar que muitos organismos como o Banco Mundial pressionaram e estimularam nações pobres para que apostassem na agroexportação, afogando sua própria agricultura campesina. Também o desaparecimento das tarifas sob a ‘lógica do mercado’ facilitou que excedentes subsidiados pelos Estados Unidos penetrassem em países pobres, aniquilando a produção local, o que gerou uma dependência das importações.”

Em meio à crise de 2007-2008, o Brasil sofreu menos o impacto da alta do que outros países, justamente por ter instrumentos domésticos para se proteger, embora tenha havido alteração de preços, como agora. Mas o papel desempenhado pela agricultura familiar, responsável por aproximadamente 70% da alimentação do brasileiro, foi fundamental para que a situação não fosse pior. “Muitos países asiáticos e latino-americanos em que a agricultura familiar tem baixa capacidade de produção foram mais afetados”, pontua Maluf. Mas o cenário pode se alterar em um futuro próximo, já que o modelo do agronegócio, voltado para exportação, cresce em ritmo mais rápido que a agricultura familiar.

De acordo com o relatório do Consea, divulgado em novembro de 2010, “a expansão do agronegócio e das formas privadas de apropriação dos recursos naturais a ele associadas contribuíram para acentuar a já elevada concentração da propriedade da terra no Brasil e para limitar o avanço das políticas de reforma agrária. A concentração fundiária e a morosidade na implantação da reforma agrária constituem, hoje, um dos principais obstáculos ao desenvolvimento e à consolidação dos sistemas familiares de produção rural no Brasil. O desenvolvimento da agricultura familiar e do agroextrativismo é estratégico para a soberania e a segurança alimentar e nutricional das populações do campo e da cidade”.

“A expansão do agronegócio vem sendo viabilizada com a atuação do que chamo de tríplice aliança: latifúndio-Estado-agronegócio. Nesse sentido, o agronegócio reúne o que há de mais moderno em termos tecnológicos com o que há de mais arcaico em termos de estrutura fundiária e de relações de trabalho”, avalia Christiane S.S. Campos, doutora em Geografia e professora da Universidade Federal de Santa Maria. Além de não assegurar o abastecimento interno, parte das vantagens propaladas pelo agronegócio, como a geração de empregos, deve ser relativizada.

Além de gerar menos empregos – pesquisa realizada por Rosemeire Aparecida de Almeida, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, constata que, no estado, as áreas de menos de 50 hectares geram uma ocupação a cada 6,7 ha, enquanto aquelas acima de mil hectares geram uma ocupação a cada 411,56 ha –, a qualidade dos postos também não é elevada. “Em relação especificamente às condições de trabalho, observa-se que onde se expande o agronegócio se intensifica a precarização, uma vez que se reduzem os empregos fixos, se ampliam empregos temporários e se intensifica muito o ritmo de trabalho, o que amplia a quantidade e a gravidade das doenças que atingem a população trabalhadora”, explica Christiane. “Isso sem falar do contato direto dos trabalhadores com os agrotóxicos, pois à medida que cresce a produção e a produtividade agrícola, cresce o consumo dos agrotóxicos no país.”

A geógrafa realizou uma pesquisa sobre a pobreza feminina em meio à riqueza do agronegócio, baseada em um estudo de caso da cidade de Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul. Ela entrevistou empregadores de diferentes segmentos da cadeia produtiva da soja no município, e os resultados mostraram que as desigualdades geradas por esse tipo de monocultura em larga escala se dão em diferentes níveis. “O perfil do emprego gerado pelo agronegócio pode ser sintetizado em quatro palavras: masculino, formal, temporário e precário. É masculino porque 78% dos postos de trabalho gerados pelos empregadores entrevistados eram ocupados por homens. É formal porque 97% dos empregos tinham contrato de trabalho. É temporário porque 66% dos empregos são oferecidos por um período predeterminado, geralmente de três meses. É precário devido ao curto período de tempo da maioria das vagas e à baixa remuneração para a maior parte das funções, especialmente no caso das mulheres.”

Os dados colhidos por Christiane levaram à constatação de que, em Cruz Alta, o agronegócio contribui decisivamente para retroalimentar a pobreza, mas não de forma homogênea. As mulheres têm muito mais dificuldade de se inserir no mundo do trabalho em um território do agronegócio como a cidade gaúcha. A justificativa dos empregadores é que os postos gerados são de “serviço pesado”. Entretanto, mesmo os cargos de vendedores, gerentes, entre outros que não exigem força muscular, são, na sua quase totalidade, ocupados por homens. “Ironicamente, entre os postos que as mulheres conseguem vaga estão o trabalho agrícola temporário e os serviços de limpeza nas empresas, que não podem de maneira alguma ser caracterizados como ‘serviço leve’”, explica.

A pesquisa mostra também que há uma segregação ocupacional por gênero, já que as mulheres se concentram em funções sem poder de tomada de decisão, além da desigualdade salarial, apesar de elas terem melhor escolaridade. “Nos locais pesquisados, a maior parte dos homens recebe entre dois e cinco salários mínimos. No caso das mulheres, a maioria dos estabelecimentos paga entre um e dois salários mínimos. Há inclusive empresas em que o salário das trabalhadoras não chega ao mínimo nacional”, conta Campos. “Com base nesses dados e em estudos realizados por pesquisadoras em outras cadeias do agronegócio, como a cana em São Paulo e a fruticultura irrigada em estados do Nordeste do País, concluímos que onde se territorializa o agronegócio se intensifica a desigualdade social, em geral, e, em particular, a desigualdade de gênero no mundo do trabalho.” E esse cenário se torna mais preocupante quando se considera que, em um número crescente de famílias, o trabalho feminino é a principal ou até a única fonte de rendimento. Em Cruz Alta, a mulher é a principal responsável pela renda em 40% dos domicílios.

Rosa Maria Vieira Medeiros, do Núcleo de Estudos Agrários da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lembra que o agronegócio, por ser altamente mecanizado, não faz uso de tanta mão de obra e, conforme a região em que ele se instala, há problemas de elevação do desemprego. “No Rio Grande do Sul, tanto a soja como o arroz, ao terem sua produção mecanizada, liberaram um enorme contingente de mão de obra, que foi engrossar a população de outros locais, como a região calçadista do estado. Nos anos 1980, havia linhas diretas de ônibus que saíam do norte do Rio Grande do Sul”, relembra a professora.

Agronegócio x Agricultura familiar

Além de alterar as relações sociais, o agronegócio interfere espacialmente nos locais onde se insere. “Se você olhar o mapa do Brasil, vai visualizar um processo que não está baseado na diversidade de produção ou na preocupação de se ter uma estrutura descentralizada, com aproximação dos centros de produção e de consumo. Não tem o menor sentido, por exemplo, que o arroz, sendo consumido no Brasil todo, tenha sua produção tão concentrada no Sul”, observa Renato Maluf. Efeito óbvio desse modelo é a concentração de terras. “O último censo agropecuário, realizado em 2006, cujos resultados foram publicados em 2009, mostra que houve um aumento do índice de Gini quando comparado com a década de 1980. Em 1985, o índice de Gini da área total dos estabelecimentos agropecuários do Brasil era de 0,857 e, em 2006, passou para 0,872 (quanto mais próximo de 1 fica o índice, maior a concentração)”, explica Christiane Campos. “Isso significa que nossa estrutura fundiária, que já era extremamente concentrada, ficou ainda pior com a expansão do agronegócio.”

A professora Rosa Medeiros remete novamente ao exemplo do Rio Grande do Sul para mostrar os efeitos da expansão da monocultura de soja. “O início da cultura de soja no estado data dos anos 1960 e se fortalece nos anos 1970, e essas áreas já foram redesenhadas. Antes, elas tinham policultura, criação de aves, porcos e o processo de modernização da agricultura, que fez parte de um grande projeto que trouxe uma quantidade enorme de subsídios, com créditos a juros baixíssimos, modificou esse cenário”, analisa. “Os muito pequenos acabaram absorvidos pelos grandes.”

Outra consequência do domínio do agronegócio é que a agricultura familiar passa a tentar se integrar na cadeia produtiva de acordo com os interesses dos grandes. “Em Cruz Alta, por exemplo, não se percebe mudança na paisagem rural quando se está numa área da agricultura familiar e em uma lavoura de um grupo do agronegócio, porque em ambas predomina a soja, e nas lavouras se usa sementes transgênicas e o plantio direto”, destaca Christiane. “Até porque os grupos do agronegócio controlam as estruturas de armazenagem e de insumos, encarecendo o custo de produção de produtos diferentes daqueles que consideram prioritários.”

Rosa Medeiros realizou uma pesquisa no município de Tupanciretã, interior gaúcho, e constatou que muitos assentamentos no local já produzem soja transgênica, o que vai contra os princípios da sustentabilidade e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que tem forte presença na região. Segundo ela, há três hipóteses possíveis para que assentados repitam tais práticas: a boa qualidade da terra, que atrai os interesses do capital para o cultivo da soja; a disponibilidade de linhas de crédito incentivando a produção do grão e a necessidade de menos mão de obra com a utilização de agrotóxicos e máquinas. “Muitos estão inseridos nessa lógica, eles se organizam em cooperativas e associações e entram no sistema de competição para aluguel de máquinas. Não existe uma prática ecológica.”

No entanto, alguns assentados estão optando por uma prática sustentável: a produção do arroz ecológico, que dispensa a utilização de agrotóxicos ou adubos químicos. “É muito difícil para quem planta. O arroz ecológico requer um outro tipo de envolvimento, todo um desejo e uma filosofia de vida. Se essas pessoas pensarem só no rendimento, na primeira quebra de safra acabam largando”, pondera. Mesmo assim, a cada ano mais agricultores assentados estão optando por produzir esse tipo de arroz, que, segundo dados do MST, envolve aproximadamente 400 famílias no estado e deve produzir 344 mil sacas na safra 2010/2011, ante 170 mil, da safra 2009/2010.

Nesse contexto, a contraposição entre a agricultura familiar e o agronegócio, no que diz respeito à soberania alimentar, invoca o debate sobre o papel exercido pelo poder público. A primeira, como já dito anteriormente, é fundamental para a alimentação da população, mas o peso econômico do agronegócio é significativo. Desde a década de 1990, a participação das commodities na pauta de exportações brasileira ficava em torno dos 40%, mas, entre 2007 e 2010, ela passou para 51%. E é bom lembrar que o fenômeno não se deve exclusivamente à valorização das commodities.

“Trata-se de uma questão de políticas públicas, temos dois Ministérios, um da Agricultura e outro do Desenvolvimento Agrário. A ideia é a coexistência do agronegócio e do desenvolvimento da agricultura familiar, mas a menina dos olhos é o agronegócio, porque representa muito na balança comercial do País”, acredita Rosa Medeiros. “A dinâmica do agronegócio é muito poderosa e conta com o beneplácito da história brasileira, na qual uma das características mais marcantes em todos os regimes que tivemos é essa presença importante e poderosa da grande produção e da estrutura agrárias concentradas, e que são uma reprodução da raiz da nossa desigualdade social”, avalia Renato Maluf, que reconhece o importante papel do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), mas alerta sobre a necessidade de aprimorar o sistema de financiamento. “O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é inovador e percorre o mundo, mas tem que ganhar mais amplitude do que tem hoje, é preciso decisão política e um tempo para que essa produção seja organizada.”

E a proteção contra os movimentos especulativos também já pauta as ações governamentais. A secretária de Segurança Alimentar, Maya Takagi, conta que já há uma discussão sobre a elaboração de um sistema de monitoramento dos preços, tanto dos insumos quanto dos preços dos produtores e os que chegam aos consumidores. “Ainda em fase inicial, a ideia é juntar os diversos índices de preço que existem e elaborar um sistema para acompanhar as oscilações e comparar com anos anteriores. Assim, é possível planejar várias formas de intervenção, verificando onde a elevação se concentra, no atacado ou no varejo, ou se é no nível dos insumos, por exemplo”, explica Maya. “Um segundo ponto é fortalecer a armazenagem, já que, com ela, é possível atuar para enfrentar uma eventual elevação de preços.”

Maluf atenta para a necessidade de um diálogo global e ressalta que é preciso agir no cerne do problema: a especulação. “A rodada de Doha caiu, e hoje a regulação financeira é fundamental, mas nem todos querem implementá-la. O Brasil tem regulação, mas os EUA, o principal mercado do mundo, resistem a ela, e o que acontece ali em Chicago repercute no mundo todo”, aponta. “Mas a regulação da especulação financeira depende de um acordo entre as nações e, sobretudo, dos principais países.” Não será fácil.

FONTE: http://bit.ly/mNPOq5

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